Sobre ver a garota 100% perfeita numa bela manhã de abril

Por Haruki Murakami

Adaptado e traduzido da versão em inglês por Philipe Maciel – www.matizes.escondidos.zip.net

Numa bela manhã de abril, numa calçada apertada na badalada região de Harujuku, em Tóquio, eu me deparei com a garota 100% perfeita.

Para falar a verdade, ela não é tão bonita assim. Tipo, ela não se destaca. As roupas dela não têm nada demais. O cabelo dela ainda está meio marcado de dormir. E ela não é nenhuma jovenzinha: ela deve ter uns trinta, nem seria uma "garota", para falar a verdade. Mesmo assim, a vinte metros de distância, eu sabia: ela é a garota 100% perfeita para mim. No momento em que eu a vi, senti a boca seca como um deserto e um frio na barriga.

Quem sabe você tem seu próprio tipo favorito de garota – uma com tornozelos delicados, por exemplo, ou com olhos grandes, ou com dedos graciosos, ou talvez, por nenhuma razão especial, você goste de garotas que gostam de comer bem devagar. Eu tenho as minhas preferências, claro. Às vezes eu me pego em um restaurante olhando a garota da mesa ao lado porque eu gostei do jeito, da forma do nariz dela.

Mas ninguém pode insistir que a sua garota 100% perfeita corresponde a algum tipo preconcebido de mulher. Mesmo gostando de narizes, eu mal consigo me lembrar do nariz dela – ou mesmo se ela tinha um. O que eu me lembro com certeza era que ela não era nenhuma bonitona. É estranho isso.

" -Ontem na rua eu vi a garota 100%.", eu falo para alguém.

- "Sério?", ele diz. "Bonita ela?"

- Nada de especial.

- Ah, mas era do seu tipo preferido, não é?

- Eu não sei. Eu não lembro quase nada sobre ela – a forma dos olhos ou tamanhos dos peitos, por exemplo.

- Esquisito isso, hein?

- Esquisito mesmo.

- "E aí", ele pergunta, já um pouco entediado, "o que você fez? Puxou papo? Seguiu a moça?"

- Nada. Eu só passei por ela na rua.

- Ela estava indo da esquerda para direita, e eu estava indo da direita para a esquerda. Era uma manhã de abril realmente bonita.

Eu queria poder conversar com ela. Meia hora seria suficiente: só mesmo conversar sobre ela, falar sobre mim e - o que eu queria fazer mesmo - explicá-la sobre a complexidade do destino que levou a nos cruzar numa calçada de Harujuku numa bela manhã de abril de 2006. Ah, com certeza seria algo cheio de significado e de segredos, como num daqueles relógios de antiquário.

Depois de conversar, a gente iria comer em algum lugar próximo, quem sabe ir ao cinema, para num barzinho para tomar algo. E com um bocado de sorte, a gente poderia até mesmo terminar na cama.

Possibilidades batem na porta do meu coração.

Agora a distância entre a gente era de apenas cinco metros.

Como é que eu posso abordá-la? O que eu devo dizer?

- Bom dia, senhorita. Você teria meia hora para uma conversa?

Ridículo. Eu iria parecer um vendedor de seguros.

- Com licença, mas você sabe se teria uma lavanderia por essas bandas?

Não, essa também é péssima. Eu nem estou com roupa suja aqui. Quem iria levar uma dessas a sério?

- Talvez a própria verdade resolvesse meu problema. "Bom dia. Você é a garota 100% perfeita para mim."

Não, ela não iria acreditar. Ou, mesmo se ela acreditasse, ela poderia não querer conversar comigo. "Desculpe-me", ela poderia dizer,"eu realmente posso ser a garota 100% perfeita para você, mas você não é o garoto 100% para mim". Sim, poderia acontecer. E, se eu me encontrasse nessa situação, eu provavelmente iria me despedaçar. Eu nunca mais me recuperaria do choque. Eu tenho trinta e dois anos, e você sabe como é, essas coisas de envelhecer.

Passamos em frente de uma floricultura. Uma brisa quente me passa pelo nariz. O asfalto está úmido, e eu noto o aroma das rosas. Eu não consigo abordá-la. Ela veste uma blusa branca, e na mão direita segura um envelope branco, preenchido, faltando apenas o selo. Então é isso: ela escreveu uma carta para mandar para alguém, talvez ela tenha passado a noite inteira escrevendo, a julgar pelo olhar de sono dela. Quem sabe o envelope tenha todos os segredos dela..

Eu dou mais alguns passos e me viro: ela some na multidão.

Agora, claro, eu sei exatamente o que eu deveria ter dito a ela. O problema é que seria uma longa história, longa demais para eu conseguir contar direito. As minhas idéias nunca são muito práticas.

Ah, tudo bem. Eu começaria a história com "era uma vez" e terminaria com "uma história triste, não acha?”.

Era uma vez um lugar, onde viviam um menino e uma menina. O menino tinha dezoito anos e a menina, dezesseis. Ele não era especialmente atraente, e ela não era especialmente bonita. Ele era um garoto comum solitário e ela, uma garota comum solitária, como todos os outros. Mas algo com eles era diferente. Eles acreditavam com todas as forças que, em algum lugar do mundo, haveria um garoto 100% perfeito e uma um garota 100% perfeita para eles. Sim, eles acreditavam em um milagre. E esse milagre realmente aconteceu.

Um dia os dois se encontraram na esquina de uma rua.

"-É incrível", ele disse. "Eu procurei por você minha vida toda. Você pode não acreditar, mas você é a garota 100% perfeita para mim."

"E você", disse ela então, "é o garoto 100% perfeito para mim, exatamente como eu o imaginava, detalhe por detalhe. Não dá para acreditar. Parece um sonho."

Eles então sentaram num banco de praça, deram as mãos e contaram para outro as suas histórias, por horas a fio. Eles não estavam mais sozinhos. Eles encontraram e tinham sido encontrados pelo seu par 100% perfeito. Que coisa maravilhosa é essa de encontrar e ser encontrado pelo seu par 100% perfeito. É sem dúvida um milagre, um milagre dos céus.

Enquanto estavam sentados e conversando, entretanto, uma pequena, uma pequena pontada de dúvida estava em seus corações: será que era possível o sonho de alguém se realizar assim, tão facilmente?

E então, quando veio uma pequena brecha na conversa, o garoto disse para a garota: "Vamos nos testar – só uma vez. Se formos realmente os pares 100% perfeitos, então, de alguma forma, em algum lugar, nós vamos nos encontrar de novo, sem dúvida. E quando isso acontecer e soubermos que somos 100% perfeitos um para o outro, nós vamos ficar juntos, para sempre. O que você acha?"

"Isso", ela disse, "é exatamente o que devemos fazer."

Então eles foram, cada um para um lado.

O combinado, porém, era totalmente desnecessário. Eles nunca deveriam ter feito tal trato, porque eles verdadeiramente eram os pares 100% perfeitos um para o outro. Era um milagre que eles tenham realmente se encontrado. Mas, jovens como eles eram, eram impossível que eles soubessem disso. As ondas frias e indiferentes do destino acabariam por separá-los, impiedosamente.

Num inverno, tanto o garoto quanto a garota pegaram uma doença terrível e após semanas entre a vida e a morte, eles perderam todas as memórias dos seus anos de juventude.

Mas eles eram dois jovens determinados e inteligentes, e através de seus esforços disciplinados conseguiram readquirir o conhecimento necessário para voltarem a ser membros completamente funcionais da sociedade. Sim, graças aos céus, eles se tornaram cidadãos completos, capazes de andar pela cidade e de mandar uma encomenda pelo correio. Eles inclusive voltaram a experimentar o amor, às vezes um amor tão grande quanto 75% ou até mesmo 85%.

O tempo passou com uma incrível rapidez, e em pouco tempo o garoto tinha trinta e dois anos, e a menina tinha trinta.

Numa bela manhã de abril, à procura de um copo de café para começar o dia, o garoto estava indo da direita para a esquerda enquanto a garota, que ia mandar uma carta registrada, ia andando da esquerda para a direita, na mesma calçada apertada de Harujuku. Eles se cruzaram bem no meio da calçada. Um brilho pálido das memórias há muito perdidas brilhou brevemente em seus corações. Cada um sentiu um frio na barriga. E eles sabiam:

Ela é a garota 100% perfeita para mim.

Ele é o garoto 100% perfeito para mim.

Mas o brilho das memórias era pálido demais, e seus pensamentos não tinham a clareza de catorze anos atrás. Sem dizer uma palavra sequer, eles se cruzaram e rapidamente desapareceram em meio à multidão.

Para sempre.

Uma história triste, não acha?

Sim, era isso, era exatamente isso que eu deveria ter dito para a moça da calçada.