Matizes Escondidos

01/08/2009

O que fazer com o isopor da geladeira? - Soluções mágicas para o lixo (não existem)

Como outras compras relativamente importantes (televisão, carro, computador), a compra de uma geladeira geralmente vem acompanhada de uma lua-de-mel com o aparelho (como é silenciosa! como é graciosa! que nobre obra de engenharia!).

Os fabricantes desses bens sabem disso e aproveitam para embarcar na festa (afinal, você tem que associar sua marca a coisas boas, certo?):

Cliente especial? Eu? Que beleza!

Eu, um cliente especial? Que beleza! Nem eu sabia. Queria que D. Mércia, minha professora que disse que eu não teria futuro, me visse agora! - quem é que não gosta de ser mimado?

Só que temos pelo menos um probleminha: geladeiras vêm com uma quantidade fenomenal de embalagem, principalmente isopor (se você já comprou uma, sabe). Depois de desembalar a geladeira, é como se uma nevasca de isopor tivesse castigado a sua casa, isso sem contar as colunas enormes que vêm envolvendo o aparelho.

O que fazer?

Vamos ler as instruções do fabricante:

Empresas de reciclagem?

Ah, vamos encaminhar aquela embalagem toda para as companhias de reciclagem.

Lixo é uma coisa ruim. Lembra rato, barata, mosca, rato, lixão, doença e Al Gore. Você e sua marca não querem lembrar o consumidor, nessa hora tão feliz, que há problemas do mundo, não é mesmo?

Mas reciclar é bom! Bônus duplo!

Ora, qual é o próximo passo no manual de instruções? Ligar o aparelho no seu reator de fusão nuclear caseiro?

Essas coisas não existem - reator de fusão nuclear caseiro e companhias de reciclagem para as quais o consumidor pode, fácil e simplesmente levar o seu (relativamente pouco) lixo doméstico. Em especial o isopor, que é volumoso e pouco denso, não sendo um candidato nato à reciclagem.

A dura realidade é que 99,8% dos consumidores simplesmente vão jogar a embalagem toda diretamente no lixo (exceto alguns, como um cara que eu conheço que queima o lixo plástico no quintal de casa, o que é péssimo).

A estratégia da empresa responsável pelo manual em questão é transferir o ônus do lixo para o consumidor final. A empresa perde pontos também por usar uma imagem bonitinha de bichinho para sensibilizar o consumidor a assumir o ônus do lixo (não reciclou? não se importa com os pandinhas?)

Você não reciclou? Quer matar o mundo? Pandas vivem nele!  

(Pontos positivos para empresa por usar gases menos agressivos para o ambiente. Caberia discussão, de qualquer forma, se ela teve escolha quanto a adotar esses gases. Afinal, a recusa em fazê-lo poderia causar uma reação desfavorável do poder público e dos consumidores.)

Na Alemanha, o fabricante deve se responsabilizar também pela coleta da embalagem. Isso provavelmente se embute em alguma parte no preço do produto. Ou seja, não há almoço grátis.

A questão não é se o problema do lixo é séria ou não. É óbvio que é. O ponto é que ignorar o problema, ou fingir que soluções não-existentes existem (como fez a empresa responsável pelo manual) não resolve nada.


Escrito por Philipe às 12h07
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30/07/2009

CD com encarte sem letra

Mais um pet peeve meu: CDs que vêm com encarte sem letra.

Antes uma justificativa para comprar CDs é que a qualidade de áudio deles é sempre superior à do MP3 e do WMA - ainda que quase imperceptivelmente em muitas situações. Agora, com o grande barateamento da banda de rede e da capacidade de armazenamento de dados, mesmo os audiófilos podem baixar música: é só baixar em FLAC.

Restam então poucas razões práticas (não vamos falar das morais nem das implicações de longo prazo para o mercado) para se comprar um CD, em vez de baixá-lo de graça na Internet. Para mim, uma delas é a posse física do CD, que fica muito bonito na estante. Uma outra é o encarte. Adoro escutar a música lendo as letras.

Mas quando o encarte não vem com as letras? Será que vale a pena pagar 30, 40 reais em um disco com encarte feito com tão pouco carinho que não inclui sequer as letras? Aconteceu comigo recentemente e fiquei muito chateado.

A Internet tem sido uma adversária grande das gravadoras, mas às vezes elas próprias são suas maiores inimigas.

Mais sobre o mercado de áudio e de discos aqui.


Escrito por Philipe às 21h23
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28/07/2009

Google Trends

Um dos problemas do Google Trends é que ele é muito sensível às definições fornecidas. Para ele, e-mule e emule são animais completamente diferentes. Esse é um fato a ter em mente ao fazer uma análise como a feita ontem. Alguém sabe se há como agregar diversos itens de pesquisa em uma linha de tendência só? 

Google Trends


Escrito por Philipe às 21h53
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Pequeno Delito

Ontem eu sonhei que estava em uma espécie de conjunto comercial onde tinha um Subway. No sonho eu estava com fome (talvez estivesse com fome na vida real também). Aí eu entrava no Subway e roubava um pão branco de 30cm! Saí da lanchonete sem ser notado e comi rapidinho. Estava uma delícia - às vezes, quando eu encontro um pão excepcionalmente bom, eu prefiro não passar nem colocar nada nele, para aproveitar o melhor sabor da massa. A partir de então eu fiquei preocupado, pois se me pegassem eu teria problemas. No sonho eu pensei: ah, se me pegarem eu alego furto famélico (com esses termos), afinal, eu estava com fome mesmo!

Pequeno Delito, por Mundo Canibal. Sim, é de 2005 e você está ficando velho.


Escrito por Philipe às 21h11
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27/07/2009

Tendências em Tecnologia no Brasil - Google Trends

Motivado por esta notícia (em especial pela frase "Most of the service operators working in Russia, such as Skype and ICQ (who still uses ICQ?), are foreign), usei o Google Trends para analisar a popularidade de consultas sobre alguns programas e sites no serviço de busca. As consultas são restritas ao Brasil.

As imagens foram editadas para retirar os marcadores de notícias. No caso do Twitter no último gráfico, como as notícias cobriam parte importante da linha nos últimos meses, foi necessário extrapolar a tendência.

  • Comunicadores instantâneos:

ICQ vs MSN

Em algum momento de meados de 2004 o Messenger superou o ICQ, que rapidamente se encaminhou para o esquecimento. As consultas referentes ao Messenger estão em baixa nos últimos meses, entretanto.

  • Peer-to-peer

P2P trends

Antes soberano, o Kazaa também tomou o rumo do esquecimento. O protocolo Torrent segue em uma suave, porém contínua, subida em popularidade nas buscas. O E-Mule chegou a ter seu momento de fama, mas agora está em declínio. Gráfico atualizado. 

  • Versões do Windows 

 Windows trends

Desde o começo o Windows XP  é o mais popular nas consultaas, sendo superado, brevemente, pelo Vista no início de 2007. O Vista, porém, fica estagnado e está em vias de ser superado pelo Windows 7. O Windows 95, nunca muito procurado, praticamente some depois de 2005. O Windows 98 lentamente percorre o caminho trilhado pela versão 95.

  • Distribuições Linux

Linux trends

Enquanto no começo da série distribuições tradicionais se digladiam, o avanço do Ubuntu o torna o mais popular nas buscas a partir de meados de 2006. Seriam os picos na busca pelo Ubuntu devidos ao início dos semestres letivos nas faculdades? Update: Suspensão de Juízo diz que "os picos do Ubuntu provavelmente se devem aos seus lancamentos, que são semestrais em abril e outubro."

  • Antivírus 

Trends em anti-vírus

Em 2004, AVG e Norton eram soberanos. Ao longo do tempo, porém, os dois perdem popularidade, especialmente o Norton. O Avast! aos poucos se tornou o mais popular.

  • Redes Sociais

Redes Sociais - Trends

Apesar do declínio, o orkut ainda é, de longe, a rede social mais popular no Brasil. Incluir o MySpace ou o Facebook não faria muita diferença no gráfico acima. Eles praticamente não aparecem.

Se excluirmos o orkut, apenas o Twitter se destaca:

Crescimento do Twitter no Brasil - Trends


Escrito por Philipe às 20h39
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26/07/2009

Vale-Cultura - Um Comentário

Como parte da reforma das políticas do Ministério da Cultura (MinC), cujo carro-chefe é a criação de uma nova lei federal de incentivo à cultura, está tramitando em Brasília a criação do Vale-Cultura. Ele é uma espécie de tíquete, estilo do vale-alimentação, no valor de R$ 50, a ser pago mensalmente a trabalhadores de renda baixa e média. A proposta é ele seja financiado tanto pelo empregador, por meio de isenção fiscal, como pelo beneficiário, com desconto em salário. Do Globo:

Financiado por meio de renúncia fiscal das empresas, o Vale-Cultura poderá ser um cartão magnético ou um tíquete impresso, no valor de R$ 50, que o empregado das empresas interessadas poderá receber todo mês, para gastar na compra de bens de cultura ou de ingressos em eventos e espaços culturais.

Só poderão participar empresas que declaram Imposto de Renda com base no lucro real. Ao darem mensalmente o Vale de R$ 50 aos funcionários, elas poderão deduzir até 1% do IR devido. As empresas de outros regimes tributários, que já seriam beneficiadas com renúncia fiscal, poderão participar do programa sem deduzir do IR o investimento no Vale, mas com a alternativa de incluir esse valor como despesa operacional (o que reduz seu IR devido).

Alvo principal é quem ganha até cinco salários mínimos

Mas os empregados também vão ajudar a financiar o Vale. Quem ganha até cinco salários mínimos arcará com, no máximo, 10% do valor, ou seja, R$ 5. O alvo do Vale-Cultura são os empregados nessa faixa salarial. Os que ganharem mais de cinco salários mínimos também vão poder receber o Vale, desde que todos com salário abaixo disso naquela empresa já tenham recebido o benefício. Além disso, os que ganham mais também terão de pagar percentual maior: de 20% a 90% do valor.

(...)

Apenas citado no projeto de lei de reforma da Lei Rouanet (que o MinC deve enviar ao Congresso só em agosto), o Vale-Cultura foi colocado pelo governo em um projeto separado, para que pudesse tramitar mais rapidamente. Segundo o ministério - que pretende utilizar os dados gerados pelo sistema dos cartões do Vale para identificar que setores da cultura têm maior consumo, em que regiões e por consumidores de que faixas salariais -, a criação do Vale pode aumentar o consumo de cultura no país em até R$ 600 milhões por mês.

(...)

Confesso que até agora não tenho uma opinião formada a respeito do tal vale. De qualquer forma, tentei identificar alguns pontos que considero importantes no debate:

Aspectos positivos do Vale-Cultura

- É orientado para o lado da demanda: Conforme exposto por Hayek, o conhecimento está disperso pela sociedade, e é impossível que um agente apenas (um consumidor, uma empresa ou o mesmo governo) consiga absorvê-lo e usá-lo na totalidade. Por outro lado, um sistema distribuído, como um mercado relativamente livre, é capaz de agregar parte do conhecimento dos agentes e consolidá-lo em alguma medida sintética (como a demanda e/ou oferta de um bem ou serviço, que resulta em determinado conjunto de preços). Além disso, um sistema distribuído tem a vantagem de ser mais simples e ágil.

No caso do Vale-Cultura, esse seria um aspecto importante. Atualmente quem decide quais projetos podem ser incentivados pela Lei Rouanet é um grupo de pareceristas do MinC, em um trabalho complexo e demorado, sujeito a subjetividades e a amizades do rei. Outro ponto é que o conhecimento da linguagem técnica e dos caminhos burocráticos, fez surgir alguns grupos poderosos de proponentes que capturaram a Lei e passaram a se utilizar dela para levar adiante projetos próprios.

A criação do vale, ao reduzir o poder dos agentes centrais (governo e proponentes) e aumentar o poder dos consumidores, contribuiria para uma maior capilaridade do sistema, simplificaria os procedimentos burocráticos e permitiria um maior conhecimento sobre o que é realmente demandado em termos de mercado culturais pela população, levando ao aperfeiçoamento do mercado cultural. Reduz também os riscos de "dirigismo cultural".

- Isenção Fiscal: Embora o ideal seja que os impostos fossem mais baixos, a possibilidade de isenção fiscal pelo menos oferece às empresas participantes do programa um destino alternativo para parte dos recursos antes alocada para pagamento de tributos. Volume de recursos: Com a estimativa de viabilizar a transferência de R$ 600 milhões por mês para o mercado cultural - o equivalente a mais de R$ 7 bilhões por ano, o Vale-Cultura pode ser um poderoso instrumento de política pública com custos de administração relativamente baixos. 

Aspectos negativos do Vale-Cultura 

- Distorção alocativa: Uma vez que é baseado em isenção fiscal e em contribuições diferentes de diferentes agentes produtivos, os sinais emitidos pelo Vale-Cultura, embora melhores do que os da Lei Rouanet, não são tão bons quanto os de um mercado "puro". É feita a ressalva, entretanto, que a renda baixa e o desinteresse da de boa parte da população pelo consumo de certos bens culturais dificulta a formação de um mercado "puro". 

Além disso, os R$ 7 bilhões anuais que serão transferidos via Vale-Cultura não serão "criados" do nada. Eles representarão a transferência de recursos de outras partes da economia para o programa. Ou seja, para que o mercado cultural ganhe esses R$ 7 bilhões, outros setores terão que perdê-los - em um dado momento, o produto econômico é fixo. É discutível se o ganho de produtividade com o aumento do consumo de cultura (se houver) será capaz de recuperar esse gasto no logo prazo, transformando-o em investimento. 

- Aumento da carga tributária: Como a queda na arrecadação a ser promovida pelo vale provavelmente não será acompanhada de uma redução nos gastos do governo, é razoável supor que a isenção maior será compensada pela criação ou majoração de outros impostos. As empresas que não participarem do programa teriam então sua carga de impostos aumentada, e as participantes manterão sua carga tributária mas terão a necessidade de repasses para o vale. 

- Foco no "trabalhador":  Consoante com a orientação política do PT, o foco do programa é o "trabalhador". Ora, como será feita a definição de "trabalhador"? Caso a definição de trabalhador seja "aquele com carteira assinado", isso representaria um retrocesso à política social da Era Vargas, em que o acesso à (pouca) infra-estrutura de serviços públicos era vinculada à formalização do trabalho e vínculos com sindicatos. De uma maneira ou outra, essa vinculação de direitos com a formalização da situação trabalhista ainda vem sendo desmontada. Hoje sabemos que mais vulneráveis que os "trabalhadores" são os informais (não seriam eles trabalhadores?) os inválidos e idosos pobres não cobertos pelo BPC e as famílias com crianças e adolescentes. Pelo que li até agora, eles não serão inclusos no programa. 

De forma geral, caso seja aprovado na maneira proposta, o Vale-Cultura é um programa muito grande, e por isso mereceria mais atenção do que tem recebido.


Escrito por Philipe às 11h10
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