Matizes Escondidos

22/03/2008

Brevíssima análise do filme Laranja Mecânica, de Kubrick

Achei um pequeno texto da faculdade mexendo em arquivos antigos.

***

Brevíssima análise do Filme “Laranja Mecânica” à luz do Behaviorismo 
  
Aluno: Philipe Marques C. Maciel

Turma: XIV CSAP  
 
Trabalho de Psicologia Organizacional
 

O filme “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick, retrata a tentativa de transformação do jovem Alex DeLarge - impulsivo e  violento - em um indivíduo de conduta normal.

Alex é preso após cometer uma série de crimes, entre eles, estupro e assassinato. Enquanto preso, ele escuta rumores de uma técnica que seria capaz de transformar um criminoso em um indivíduo incapaz de cometer crimes. Ele se habilita a ser o primeiro a receber o tratamento.

Alex é preso a uma cadeira, e tem suas pálpebras mantidas sempre abertas por meio de presilhas. Ele toma um medicamento que causa uma náusea muito forte e é exposto a uma série de filmes extremamente violentos, que retratam crimes que ele mesmo cometera, como estupro e espancamento. Ele não pode desviar o olhar da tela, uma vez que está completamente preso e impossibilitado de fechar os olhos. Enquanto os filmes são exibidos, a droga causa em Alex náuseas incontroláveis. Um dos filmes exibidos traz como música de fundo a 9ª sinfonia de Beethoven, que é seu compositor predileto.

Após duas semanas de tratamento, Alex é considerado “reabilitado”. Ele está, de fato, incapacitado de cometer atos criminosos. Essa incapacidade para o mal não decorre, entretanto, de uma melhora de seu caráter. A exibição dos filmes violentos do tratamento ao qual se submetera havia sido conjugada com um remédio indutor de náusea e agora, sempre que ele tivesse um impulso violento, ele teria um acesso de náusea paralisante. Assim, temos que o impulso violento de Alex continua existindo – ele somente não é capaz de executá-lo. A associação entre violência e a náusea é tão forte que nem para se defender Alex é capaz de atacar alguém, tornado-se uma alvo fácil para a vingança de suas vítimas.

Umas dessas vítimas, ciente do mecanismo do tratamento, prende Alex em um quarto e inicia a execução da 9ª sinfonia. Embora Alex goste muito de Beethoven, o tratamento inadvertidamente associou essa sinfonia à sensação incapacitante de náusea. Para escapar da sensação irresistível, Alex  tenta suicídio, se jogando da janela do quarto. Ele não morre, mas fica gravemente ferido.

O tratamento recebe muita publicidade por causa da tentativa de suicídio. A opinião pública critica o governo por usar uma técnica tão brutal.

Enquanto Alex se recupera, ele recebe a visita de uma psicóloga que irá tentar quebrar a associação entre pensamentos violentos e a náusea incapacitante. Ela mostra cartões retratando situações que envolvem diálogos incompletos entre pessoas. A psicóloga, então, pede que Alex complete os diálogos com aquelas frases que lhe vierem à cabeça. Inicialmente fraco e inibido, ele vai gradualmente permitindo que seu lado original, violento e impulsivo, aflore. Ele completa os primeiros diálogos com frases brandas e vai ao poucos tornando suas respostas mais violentas. Em certo momento, ele é considero “curado”, ou seja, não mais sofreria náuseas quando tivesse impulsos violentos. 

O tratamento que Alex recebe tem nítida inspiração no condicionamento behaviorista. Esse condicionamento consiste em associar um estímulo ambiental a uma resposta fisiológica. No caso ilustrado pelo filme, esse condicionamento consiste em associar atos de violência com uma náusea muito forte, induzida por medicamentos. Depois de encerrado o “tratamento”, a mera emergência de impulsos violentos em Alex é capaz de disparar o reflexo da náusea, mesmo que ele não tenha tomado o medicamento. Dessa forma, ele é incapaz de cometer mais crimes. Essa reação que Alex apresenta, de ter uma náusea a cada pensamento violento, se enquadra naquilo chamado de reflexo condicionado. É um reflexo por estar fora do controle do indivíduo. E é um reflexo condicionado por não ser natural, tendo sido introduzido por treinamento.

É interessante notar que a associação representada no filme é tão intensa que é capaz de reverter inclusive fortes preferências do protagonista. Alex aprecia muito a música de Beethoven. Por acaso, um dos filmes usado no condicionamente dele tem como trilha sonora a 9ª sinfonia. O tratamento condicionou-o a sentir fortes náuseas quando escutasse essa música, antes uma de suas favoritas. Podemos então dizer que o tratamento reestruturou a mente de Alex. Cometer atos violentos e escutar a 9ª sinfonia, antes comportamentos operantes, subordinados à sua vontade, se tornam comportamentos que disparam um reflexo condicionado, incontrolável, respondente – a náusea.

A premissa central do tratamento é transformar um criminoso em uma pessoa incapaz de cometer crimes. É exatamento isso que o tratamento faz. Ele não o faz, entretanto, corrigindo as imperfeições no caráter da pessoa. Antes, não suprime os impulsos violentos, mas torna a pessoa incapacitada de executá-los. O criminoso continua tendo uma mente violenta, somente sendo incapacitado de levar a cabo suas intenções. Assim, temos que o tratamento não altera quem a pessoa é (o problema central), mas sim como ela age (a expressão do problema).


Escrito por Philipe às 16h49
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21/03/2008

enemacertos

A internet representa uma grande mudança (avanço?) na atividade varejista: devido à rede, cada vez mais itens como CDs, DVDs, livros e eletrônicos são vendidos on-line, o que minimiza o gasto com o aluguel de lojas físicas, energia elétrica, diversos estoques, etc. Assim, temos que o comércio eletrônico introduz novos aspectos na atividade de vendas, geralmente resultando em custos (e preços) menores.

Entretanto, como estima um estudo (ai, ai, não achei a citação... se alguém me apertar, eu procuro mais), o maior ganho de bem estar derivado do comércio eletrônico não está nas transações, digamos, convencionais (como comprar "Quem mexeu no meu queijo" com R$4 de desconto), mas sim em transações com bens raros ou de baixa saída (como comprar a revistinha do Groo, pelo preço que for). Inclusive, certos mercados altamente específicos só podem ser viabilizados em meios como a Internet).

Um exemplo de que me lembro (que também não consegui achar a referência) é de uma moça nos EUA que pagou a universidade toda somente por meio da compra e venda de fraldas descartáveis para adultos raras, para colecionadores.

A idéia é que, se algo é bem específico ou raro, a Internet é o local de buscá-lo.

De qualquer forma, eu vi a seguinte tela outro dia, e tomei um susto:

Enema Certos? Ora, enema é um procedimento médico que deve ser bem desagradável. Seria Enema Certos alguma espécie de propaganda de uma clínica ou loja que realiza enemas com resultados, hum, certos?

Teríamos chegado a esse ponto de sofisticação (duvidosa?) de serviços?

 

Opa, claro que não. É só ler o que está escrito depois da '@' do enemacertos: inep.gov.br

Agora tudo faz sentido: não é Enema Certos, e sim 'Enem Acertos'.

Ainda bem. Que susto!


Escrito por Philipe às 21h52
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Balebrás S/A

Deve o Estado subsidiar manifestações artísticas?

Ora, essa é uma questão interessante e complexa.

Algumas manifestações artísticas podem ser consideradas meritórias (por preservar algumas tradições ou por ajudar a forjar um laço de identificação entre as pessoas), mas nem sempre são viáveis economicamente por si (digamos que, por ter caráter de bem público, as pessoas gostem de ver e participar de tal manifestação, mas não necessariamente estão dispostas a pagar voluntariamente por sua realização).

Entretanto, se uma atividade é tão meritória assim, deveríamos encontrar alguém disposto a bancá-la.

O que o Estado deveria fazer? Subsidiar tal atividade ou deixá-la aos seus próprios recursos, tendo o público como fonte de seu sustento?

Essa é uma discussão interessante. Se o governo apóia, digamos, uma Festa de Congado ou Cavalhada, deveria tamber apoiar cinema experimental? Como medir o valor de uma atividade? Como medir se ela gera externalidades positivas?

De qualquer forma, o Estado brasileiro (e também o poder público mineiro) dispõe de uma série de mecanismos de apoio à atividade cultural. Embora ocorram, na minha opinião, alguns deslizes, boa parte dos mecanismos de incentivo cultural são muito bacanas.

Além disso, o próprio governo também possui bandas (como as da polícia militar) e orquestras mantidas com dinheiro público.

De qualquer forma, achei divertido o nome de uma comapanhia de Balé Russo que irá se apresentar em Belo Horizonte:

Eita! Um balé ESTATAL?

Aqui no Brasil, ainda que uma companhia cultural seja mantida pelo governo (como os próprios projetos do Palácio das Artes), não costumamos chamá-los de atividades estatais.

Sei lá, na minha cabeça uma empresa estatal geralmente produz cimento ou aço. Ou ainda energia. Sabe como é, coisas historicamente consideradas estratégicas, com elevada pegada ecológica. É por isso que na hora em que eu vi "Balé Estatal" meus neurônios dispararam em padrão de estranhamento.

Claro, nada contra o nome da companhia. Só achei peculiar.


Escrito por Philipe às 10h25
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19/03/2008

A corrida eleitoral nos EUA

Vocês viram o show do Alexander Hamilton nas prévias (primeira corrida) na Austrália, final de semana passado?

Pois é, acho que essa ano ele consegue levar o título em cima de seu rival nórdico, o Kimi Raikkonen.


Escrito por Philipe às 16h23
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17/03/2008

Mascote Dividido - O mistério do Varejão das Tintas

Eu já ouvi dizer que, segunda uma determinada teoria de marketing, quando uma pessoa compra um produto, ela, na verdade, não está comprando aquele bem: ela está comprando o estado mental que a mercadoria lhe proporciona.

Humm...

Eu sei que, quando você compra um carro ou uma camisa bacana, você não está pensando exatamente na facilidade de se transportar uma mala ou em se proteger do frio. Agora, não sei exatamente qual o estado de mente que os proponentes dessa teoria irão dizer que uma pessoa busca quando ela compra um desengrimpante ou uma lâmpada incandescente de 100W.

Mas isso é apenas implicância, claro.

Isso posto, você gostaria de associar a sua marca com bons estados mentais e boas imagens. Força, agilidade, sabedoria. Aliás, eu tinha comentado algo sobre isso aqui.

É por essa razão que o logotipo de uma loja de tintas sempre me intrigou. O estabelecimento é o Varejão das Tintas, em Belo Horizonte, e você pode acessar o site deles em http://www.varejaodastintas.com.br/. O seu símbolo é um duende/leprechaun.

Propaganda - Varejão das Tintas

Essa empresa anuncia no painel traseiro de ônibus, e foi lá que eu notei algo de estranho no tal duende símbolo da empresa. Sempre que eu olho o duende, me parece que ele está triste, meio com cara de "conformado" (- na verdade eu queria estar na pós-graduação em ciência do aleatório em Dublin, mas enquanto isso, eu faço bico de mascote de uma loja aí).

Triste, conformado? Isso é o que você NÃO quer no seu mascote!

Eu queria postar somente sobre isso hoje, mas percebi que o buraco é mais embaixo.

Como dito, a tal empresa costuma anunciar na traseira de ônibus. Como o espaço não é lá muito grande, e quase só dá para ver em movimento, eu procurei na internet para ver se havia o tal duende em tamanho maior, para colocá-lo aqui.
Foi então que achei o tal duendo no site da loja, supracitado.

Ao primeiro olhar, ele não me pareceu triste, conformado, conforme eu o via nos ônibus. Decerto, vê-lo com mais detalhes havia desautorizado a minha primeira impressão. Ele não parecia triste, conformado, se visto em tamanho grande.

Ainda assim, ele me pareceu estranho...

Olhando de perto, percebe-se que o duende tem dupla personalidade...

Duende - Mascote do Varejão das Tintas

O seu lado esquerdo é feliz e sorridente, já o seu lado direito é bem pessimista e desolado. Embora talvez não se perceba num primeiro olhar essa diferença entre as metades do rosto, um exercício simples revela a diferença entre as metades: é só pegar cada metade original do rosto e criar uma imagem simétrica, e completar um novo rosto.

Olhem só os resultados:

Duende feliz                     Duende triste.

Além de tudo, o duende triste é mais magro que o duende feliz. Sem dúvida, é magro de ruim.

Como vocês são espertos (só o fato de vocês terem aguentado o post até aqui já os qualifica em algo como o percentil 93 da humanidade - embora escrever o post não me ajude a passar do percentil, hum, 29), vocês já ouviram falar da teoria de lateralização do cérebro.

Essa teoria diz que cada metade do cérebro (lado esquerdo e direito) é especializada em tarefas de processamento diferentes. De maneira perigosamente simplificada, o lado direito do cérebro (que controla o lado esquerdo do corpo) é mais 'emocional' e o lado esquerdo é mais 'analítico'. Essas diferenças, segunda a neurologista Rita Carter, se revelariam também na fomra como o cérebro controla o rosto, com cada metade da face demonstrando a orientação mais severa ou relaxada de cada hemisfério cerebral. Clique aqui para ver mais sobre essa história.

Entretanto, o nosso amigo duende claramente é uma exceção: a lateralização é muito, muito grande.

A última vez que nós vimos alguém com uma diferença tão grande de personalidade, as coisas não foram nem um pouco boas...

Morra, Seiya!


Escrito por Philipe às 20h49
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Cena do cotidiano

Hoje eu presenciei uma cena memorável...

Sentada na porta de uma loja, uma velhinha estendia a mão para as pessoas que passavam, como que se pedisse uma esmola. As pessoas passavam e nem olhavam para a idosa, ou faziam sinal de 'não', com a cabeça.

Achei estranho que a senhora estivesse relativamente bem cuidada, mas eu também achei que ela estava pedindo esmola. Eu não cheguei a passar perto dela o suficiente para dizer 'não senhora, não tenho trocado não', mas continuei olhando a cena. Enquanto isso, as pessoas passavam pela senhora...

Até que uma hora uma jovem parou. Muito para minha surpresa, a velhinha não pediu nenhuma esmola. Ao contrário, segurou na mão da moça, se levantou e começou a andar.

Esse tempo todo em que ela esteve estendendo a mão, só para as pessoas a ignorarem, ela não estava pedindo dinheiro, estava apenas pedindo uma mãozinha (literalmente) para se levantar.

Na hora em que vi a velhinha se levantando e agradecendo a moça, dolorosamente tudo fez sentido. Foi de uma poesia fácil, melancólica e tão exagerada que, se inventada e escrita, seria taxada de piegas.

Mas eu vi, eu estava lá: não foi ensaiado e nem arranjado.

Sem dúvida, um matiz escondido do cotidiano.


Escrito por Philipe às 16h33
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Coisas que se aprende fazendo monografia

Uma das coisas que se aprende fazendo monografia (ou algum outro trabalho dito científico) é que citar páginas da internet pode ser bem desajeitado, caso a URL seja grande demais.

Exemplo:

Resultado da Referência:
  

REGINA, Márcia. Para uma feita hippie melhor. Disponível em: <http://www.grude.ufmg.br/gerus/noticias.nsf/e76867f1f59135c983256bd8006d3f64/c7b24810599458ce83256d2b005bc65b?OpenDocument>. Acesso em: 17 março 2008.

Quero ver como vou encaixar isso em um pé de página...

Aproveitando o post, há um bom gerador de referência bibliográfico online em http://www.rexlab.ufsc.br:8080/more/index.jsp. Você coloca as informações básicas que o site lhe dá a citação no modelo ABNT, pronta para colocar em seu trabalho.


Escrito por Philipe às 16h22
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