Matizes Escondidos

23/02/2008

A grande moderação

O economista Andrei Shleifer chama em artigo recente de sua autoria (via Mankiw) as últimas décadas de "a era de Milton Friedman", de forma a chamar a atenção para o fato de que, em sua opinião, devido à melhoria das políticas econômicas mundo afora, decorreram uma série de benefícios: a inflação é menor, assim como a mortalidade infantil, e que a renda per capita maior, assim como a expectativa de vida.

A tal "era de Friedman" coincidiria, então, com a chamada "Grande Moderação", em que a amplitude e a variabilidade da inflação caíram, e se mantêm baixas na maioria dos países.

Do trabalho de Shleifer (disponível aqui):


Escrito por Philipe às 14h41
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stuffwhitepeoplelike.wordpress.com

Dica de blog: Stuff White People Like, aqui.

O site é americano, mas, acredite em mim, você provavelmente vai se lembrar de algum amigo, professor ou conhecido seu.

O sentimento de esnobismo e condescendência é universal.

 


Escrito por Philipe às 12h00
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Cry-o-rama

Da Folha de São Paulo de hoje:

Kosovo leva a confronto de EUA e Rússia

(...)

Cerca de 5.000 sérvios de Kosovo -onde são 7% da população- agrediram ontem policiais da ONU com pedras e garrafadas em Kosovska Mitrovica, cidade mineira de 100 mil habitantes, também habitada por kosovares de origem albanesa (88% da população). "Kosovo é da Sérvia e nunca nos renderemos, apesar da chantagem da União Européia", gritavam os manifestantes, ao serem dispersados.

Como é que você coloca cinco mil pessoas para gritar "Kosovo é da Sérvia e nunca nos renderemos, apesar da chantagem da União Européia"? Parece meio comprido e complexo demais para ser um grito de guerra, não?

Imagine só uma passeata em Brasília esses dias gritando "Abaixo o política fiscal de Lula, apesar da melhora do quadro externo as contas ainda são frágeis". Ou, ainda, para ficar bipartidário, um prostesto contra FHC em 1997 "Abaixo o câmbio de FHC, o custo-benefício da âncora cambial não compensa".

Embora não creio que exista um livro-texto de criação de grito de guerra, acredito que ele teria um trecho como "o slogan escolhido deve ser forte, de fácil identificação, emocional e curto, e de preferência, com rima".

Gritar "Kosovo é da Sérvia e nunca nos renderemos, apesar da chantagem da União Européia" ?

Complicado. Talvez em sérvio soe melhor...


Escrito por Philipe às 07h13
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22/02/2008

WWSXXD?

Hoje eu estava rascunhando alguns trechos da minha monografia de conclusão de curso. Eu estava escrevendo algumas coisas sobre falhas de mercado, tinha feito a análise de porque o monopólio é, em uma análise estática clássica, dissipador de bem estar. Daí eu falei que o governo poderia melhorar, nessas situações, os resultados alcançados pela mercado.

Ora, ora. É claro que a imensa maioria das transações que ocorrem no mundo "real" incluem, em maior ou menor grau, externalidades, competição imperfeita e informação assimétrica. Isso quer dizer que deveríamos ter uma maior intervenção do estado na economia?

Ora, dizer que o Estado pode melhorar os resultados de mercado não quer dizer que ele vai melhorar as coisas. Há algumas décadas, com o famoso enunciado E = MC^2, demonstrou-se que se é capaz de transformar massa em energia. Agora (felizmente) é muito difícil converter aquelas folhas secas do jardim em uma bola de fogo ( e assim eliminar a necessidade de se usar o ancinho). O enunciado é sempre válido, embora só possamos comprová-lo em situações especiais

Igual ao enunciado acima, o estado realmente pode melhorar os resultados de mercado. Entretanto, dadas as falhas de governo (corrupção, clientelismo, captura regulatória, etc), a intervenção do Estado pode acabar resultando em uma situação pior do que a de falha de mercado. Ou seja, mesmo que o Estado possa melhorar o resultado de mercado, quer dizer que ele fazê-lo. No caso, temos que escolher entre diversas imperfeições e escolher a menos imperfeita (second-best).

Para buscar divulgar esse insight, eu proponho uma singela campanha. Nos EUA, é popular um bracelete com os dizeres WWJD, que é uma abreviatura para "What would Jesus do?". Ao se deparar com uma situação difícil (mentir ou não para um amigo?), a idéia é olhar para o bracelete e pensar: "O que Jesus faria?". Essa é uma técnica boa para algumas situações (quando lhe oferecerem drogas), talvez nem tão boa para outras (- o quê, o nome dele era Lázaro?*).

A minha idéia é fazer um bracelete com as inscrições "WWSXXD", uma abreviatura para "What Would Severino Xique-Xique Do?". Ou seja, quando alguém sugerir que uma determina falha de mercado seja resolvida pelo poder público, olhe para seu bracelete e lembre-se de que, embora existam muitos políticos honestos e bem intencionados (a maioria dos burocratas o é), dados os incentivos existentes, temos e continuaremos tendo muitos espertalhões por aí...

* Desculpas antecipadas caso a piadinha ofenda alguém, é que eu não não consegui evitar. =D 


Escrito por Philipe às 18h25
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O Assprom e Bill Cosby

Há alguns anos, o apresentador e apresentador (negro) americano Bill Cosby causou um pequeno rebuliço nos EUA ao afirmar que negros pobres americanos, em vez de investir em saúde e educação, preferiam gastar o dinheiro em tênis e roupas de marca. Embora Cosby tenha sido atacado aqui e ali, seus argumentos estavam corretos. Do Marginal Revolution.com, aqui:

Average income of whites and other races: $53,292.
Average income of blacks: $34,485.

Expenditures on footwear by whites and other races: $274
Expenditures on footwear by blacks: $440

Ou seja, os negros, embora recebam, em média, menos que as membros das demais raças/cores/etnias, gastam mais em tênis.

Os economistas Kerwin Kofi Charles, Erik Hurst e Nikolai Roussanov fizeram em estudo em que oferecem um modelo para explicar essa discrepância, e a análise empírica é consistente com o modelo. No final da história, as diferenças de consumo não tem tanto a ver com a raça, mas sim com a renda.

A idéia é basicamente esta: imagine duas pessoas, cada uma com uma renda de R$1000 por mês. Como todo ser humano, essas duas pessoas se importam com status. Se a pessoa A mora, digamos,em um bairro de classe média, é difícil para ela competir em status com os seus vizinhos. Eles podem comprar carros legais e reformar seus apartamentos. Com seus R$1000 por mês, sem conseguir comprar um carro ou reformar seu apartamento, ele simplesmente não entra na disputa por status. Ele, então, pode gastar esse dinheiro com outras coisas, como em saúde ou educação.

Já se pessoa B mora num bairro de baixa renda, os seus vizinhos provavelmente disputam status não com carros ou casas legais. Eles têm que disputar status com coisas que caibam em seu orçamento, como tênis, roupas e celulares bacanas. Como B recebe R$1000 por mês, ele dá conta, sim, de disputar com os seus vizinhos quem tem o celular mais cheio de recursos ou o tênis mais cheio de molas. O dinheiro que ele gasta comprando celular e tênis, entretanto não poderá ser gasto em saúde ou educação.

A essência da explicação acima eu li na Slate, aqui. Vou citar do original:

Why would otherwise-similar black and white households have different incentives to signal their wealth? Charles, Hurst, and Roussanov argue that it's because blacks and whites are seeking status in different communities. In the racially divided society we live in, whites are trying to impress other whites, and blacks are trying to impress other blacks. But because poor blacks are more likely to live among other poor blacks than poor whites are to live among other poor whites, poor black families are more susceptible to being pulled into a signaling game with their neighbors.

Consider, for example, a black family and a white family each earning $42,500 a year, the median income for a black household during the 1990s. This black family sees that other black families are buying cars, clothes, and other wealth signals that, while stretching this black family's financial resources thin, are technically affordable for a family making $42,500. So, this family decides to buy them, too, in order to keep up with the conspicuous consumers that they compare themselves with.

To test their theory, the authors look at how much a white family spends on conspicuous consumption when it is surrounded by white families making a similar amount of money. They find that this white family spends the same portion of its income on visible goods as a black family surrounded by other black families with similar incomes. They also find that the further a family of either race slips behind the average income of nearby households of the same race (becoming too poor to compete in the signaling game), the less it spends on these visible goods.

Once these effects are accounted for, racial disparities in visible consumption disappear. It's not that black Americans are more inclined to signal wealth; rather, poor blacks are more likely than poor whites to be a part of communities where they are relatively rich enough to participate in the signaling game.

O artigo de Charles, Hurst e Roussanov pode ser encontrado aqui.

Eu escrevi esse post inspirado numa cena que eu vi hoje no lugar onde eu estagio. Um office boy de baixa renda (um da Assprom, para quem é de BH) chegou hoje na sala em que eu trabalho e tirou um celular de ultíssima geração. Sério, eu nunca tinha visto um celular tão fera. E olha que eu convivo com algumas pessoas que tem um boa inserção socioeconômica, se é que você me entende (segundo a lógica acima, eu deveria gastar pouco com itens de status, visto que eu não tenho dinheiro para competir com gente mais rica que eu. Bingo). Eu calculo que o celular deve custar uns três meses de salário do rapaz. Quando esse rapaz completar 18 anos, ele vai ter que deixar o cargo de boy dele. Até ele arrumar um outro emprego, com certeza o dinheiro que ele gastou no celular de mais de mil reais vai fazer falta.

PS: Isso contado aí em cima não tem nada a ver com uma suposta natureza corrompedora do capitalismo. A busca por status é inata em todas as sociedades, sejam elas capitalistas, comunistas, socialistas, tribais, feudais, etc. Uma vez que a busca por status não vai ir embora, melhor buscá-lo trabalhando e criando valor (i.e, ganhando dinheiro honestamente), que é uma soma positiva. As alternativas certamente são menos benignas: quem é mais forte, melhor posição no partido, possui mais terras, a melhor dacha, etc., que são todas marcadas pelo caráter de soma zero.

espaçador


Escrito por Philipe às 17h46
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O problema do Brasil

O Banco Central do Brasil anunciou recentemente que o Brasil passou a ser credor externo. Segundo esta reportagem, as reservas externas do país superam a dívida externa do país em cerca de 4 bilhões de dólares.

Quando eu escutei essa notícia, me lembrei de alguns questionamentos que surgiam durante as aulas de história, ensino fundamental e médio. Aqui vale uma nota: adorei todas as minhas professoras de história, foram todas muito bacanas, embora falassem um bocado de coisas que, hoje, considero baboseira. Quando algum aluno perguntava as razões do Brasil ser pobre (na verdade é um país de renda média, com bolsões de excelência e de miséria, e com distribuição de renda bastante desigual, mas vamos lá), as minhas professoras sempre tinham a quem culpar: a dívida externa. Isso foi entre 1997 e 2003, época que eu tinha aulas de história.

Sem dúvida alguma, é o "vilão" perfeito. Ninguém gosta de dívidas (a outra da face do crédito) e, se o credor for externo, melhor ainda: mistura-se à antipatia (natural) por credores e afins um pequeno toque de xenofobia. Se o país é pobre, é porque ele possui uma enorme dívida, que é externa ilegítima, impagável, devida aos grandes bancos americanos, japoneses e europeus.

Como o país poderia se desenvolver, se cada migalha era canalizada, drenada para o pagamento da dívida externa?

De fato, a condição externa do Brasil, a década de 1970, era muito frágil, o que ocasionou as diversas crises, de 1982, 1987, 1999 e 2002. Entretanto, a idéia de "crise" é de algo agudo e transitório, de conjuntura. Já a idéia de subdesenvolvimento é algo crônico, de estrutura.

Claro que é excelente que a condição externa do país esteja favorável. A adoção de políticas macroeconômicas (razoavelmente) responsáveis está dando frutos.

Acredito, entretanto, e ao contrário das minhas professoras de história, que a questão da solvência externa é apenas um dos que condicionam o baixo (ou médio) desenvolvimento brasileiro. Afinal, se "o problema do Brasil" fosse a dívida externa, era para o crescimento do país já ter "decolado" (não no sentido de Rostow).Temos ainda a questão da infra-estrutura insuficiente, imaturidade regulatória, incerteza jurídica, corrupção política, baixa escolaridade, etc.

É como o diz o Mankiw, em seu oitavo princípio de economia: o padrão de vida de um país depende da sua capacidade de produzir bens e serviços. É um conceito profundo, simples e fundamental, mas que é surpreendentemente elusivo.


Escrito por Philipe às 12h57
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21/02/2008

Fill-a-post Revolutions

Gente, eu adoro este texto aqui do Walter E. Williams, originalmente aqui.

Durante um tempo alguns links da página pessoal dele estavam quebrados. Eu descobri quais deveriam ser as URL corretas e o comuniquei via email. Ele agradeceu, e rapidamente consertou os links, além de se mostrar uma pessoa muito simpática, apesar dos textos que escorrem de ironia.

O texto seguinte é meio antigo, de 2003, mas a lógica permanece atual e generalizável. Sempre que eu leio/escuto "eficiência de Kaldor-Hicks" (ou seja, três vezes por década), eu lembro dele.

Economic Stupidity, by Walter Williams

Imagine that you and I are in a row boat. I commit the stupid act of shooting a hole in my end of the boat. Would it be intelligent for you to respond by shooting a hole in your end of the boat? Or, imagine I were a politician and told you that the Russian, Chinese, Korean, Brazilian and German governments were ripping off their citizens by, on the one hand, taxing them to provide subsidies to their domestic steel industries, and on the other, erecting tariff barriers forcing them to pay higher prices for products made with or containing steel. Would you deem it responsible or intelligent of me to propose retaliatory tariff policy whereby Americans are ripped off until Russia, China, Korea, Brazilian and German governments stop ripping off their citizens?

Both of these scenarios are applicable to the Bush administration's 30 percent steel tariffs imposed last year. Those tariffs caused the domestic price for some steel products, such as hot-rolled steel, to rise as much as 40 percent. The clear beneficiaries of the Bush steel tariffs were steel industry executives, stockholders and the approximately 1,700 steelworker jobs that were saved. Tariff policy beneficiaries are always visible but its victims are mostly invisible. Politicians love this. The reason is simple. The beneficiaries know for whom to cast their ballots and the victims don't know whom to blame for their calamity.

According to a study by the Institute for International Economics, saving those 1,700 jobs in the steel industry cost American consumers $800,000 in the form of higher prices for each steelworker job saved. That's just the monetary side of the picture. According to a study commissioned by the Consuming Industries Trade Action Association, higher steel prices have caused at least 4,500 job losses in no fewer than 16 states - over 19,000 jobs in California, 16,000 in Texas and 10,000 in Ohio, Michigan and Illinois. In other words, industries that use steel are forced to pay higher prices and the products they produce become less competitive and they must lay off workers.

The average hourly wage of steelworkers ranges between $15 and $20 plus fringe benefits; so we might be talking about an annual wage package averaging $50,000 to $55,000. Here's my question to you: how much sense does it make for American consumers to have to pay $800,000 in higher prices to save a $50 to $55 thousand-dollar-a-year job? It'd make better economic sense for Congress to pass an Aid to Dependent Steelworkers Act whereby we'd tax ourselves so as to give each of those 1,700 steelworkers, whose jobs were saved, $100,000 year so they might take off and live in a nice beachfront condo in Florida or Bermuda. While less costly to Americans than President Bush's steel tariffs, it has no political future. The handout would make the protectionist policies apparent and hence repulsive to most Americans.

Article I, Section 8 of the U.S. Constitution says Congress has the authority "To regulate commerce with foreign nations, and among the several states, and with the Indian tribes." It wasn't the Framers' intent to give one group of Americans, such as those in the steel industry, the power to use Congress to tax other Americans.

When Congress creates a special advantage for some Americans, it must of necessity come at the expense of other Americans. Those Americans who're harmed, such steel-using industries, descend on Congress asking for some kind of relief for themselves. It all reminds me of a passage from Marcus Connelly Cook's play "Green Pastures" wherein God laments to the Angel Gabriel, "Every time, Ah passes a miracle, Ah has to pass fo' or five mo' to ketch up wid it." I think Congress ought to get out of the miracle business.


Escrito por Philipe às 17h53
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Fill-a-post: Reloaded

Achado em Econocronicas.zip.net:

"Reproduzo aqui a ótima dica dada no blog do Leonardo Monastério e pelo Pedro Henrique de Sant`Anna, que escreve o blog Homo Econometricum, ambos em posts feitos em outubro do ano passado:

De acordo com o Pedro Henrique: "Daron Acemoglu, professor do MIT, disponibiliza um draft do seu livro Introduction to Modern Economic Growth.".

O livro é muito extenso, razão pela qual Leonardo Monastério levanta uma questão interessante:

" (...) Tenho certeza que suas 1.169 páginas são excelentes e que se tornará o livro texto padrão de crescimento econômico na pós-graduação.
Contudo, eu não posso deixar de pensar no seu Valor de Hawking (VH, como decidi chamá-lo). O VH é calculado da seguinte forma:

VH=número de cópias compradas *(a/b)

a=número de cópias do livro;
b=média de páginas - de fato - lidas e compreendidas.

Por exemplo, o livro do Hawking Uma breve história do tempo vendeu 10 milhões de cópias com 200 páginas, mas o número de páginas compreendidas é alguma coisa perto de 1 (um). Portanto, seu VH= 2.000.000.000, o maior na história. De volta ao livro do Acemoglu: quantos arquivos pdf vão repousar fechados e não lidos nos nossos discos rígidos?"

Me lembro de um caso como aluno de graduação, em que meu professor (o excelente Wilhelm Meiners, hoje meu amigo), cobrava a entrega das fichas de leitura de vários capítulos do livro do "Macroeconomia" do Dornbusch e Fischer.

O curso tinha 120 horas e aquela quinta edição do livro tem 930 páginas.

Gostava de ler o livro, mas na época não tinha realmente tempo para ler os vários estudos de caso da economia norte-americana com que o Dornbusch e o Fischer ilustraram o livro.

Foi aí que, mesmo possuindo o livro, emprestei da biblioteca o "Introdução à Macroeconomia", também do Dornbusch e Fischer.

Detalhe: era o mesmíssimo texto, lançado pela mesmíssima editora (Makron Books) apenas sem aqueles estudos de caso (e suas tabelas, seus gráficos, análises etc.).

Número de páginas desta edição "condensada": 307.

Depois disso passei a verificar que, se tirarmos estes estudos de caso e seus complementos de todos os livros-textos de Economia com muitas páginas (inclusive este, do Acemoglu), estas serão reduzidas à metade, no mínimo.

Foi aí que perdi a atitude reverencial que tinha por estes textos.

Passei a lê-los como quem folheia um bom livro de cerca de 200 páginas.

Enfim, passei a pular sem a menor cerimônia as várias partes do livro que simplesmente não me interessam ou não me ajudam a tirar conclusões sobre o assunto que tenho em mente.

Afinal, como Leonardo Monastério bem sugere, Stephen Hawking não precisou mais do que isso para escrever sua obra máxima.

E, cá entre nós, não é pedante intitular um livro com 1.169 páginas como "Introduction to..."?"

 


Escrito por Philipe às 17h36
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A quem interessar possa

Copiando a idéia de um aforismo do De Gustibus: Duro mesmo é quando o longo prazo se torna o seu curto prazo.
Escrito por Philipe às 17h28
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Fill-a-post

Pequeno exemplo de como as pessoas respondem a incentivos aqui.

Deve ser difícil ser um marinheiro!


Escrito por Philipe às 17h24
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18/02/2008

Jogo do ultimato e comércio

Dia desses, topei com um pequeno artigo sobre o verbete protectionism (aqui), na "The Concise Encyclopedia of Economics", escrito pelo eminente professor Jagdish Bhagwati. Diz o economista: 

"The fact that trade protection hurts the economy of the country that imposes it is one of the oldest but still most startling insights economics has to offer."

De fato, o modelo clássico de comércio internacional prevê que os países que realizem comércio exterior irão aumentar seu bem-estar econômico. Embora o comércio internacional possa não ser sempre pareto-eficiente (algumas pessoas pessoas podem prejudicadas, enquanto outras se beneficiam), o modelo prevê que as trocas internacionais serão Kaldor-Hicks-eficiente (embora existam perdedores, o que os ganhadores ganham mais do que compensa o que os perdedores perdem). Para um exemplo interessante da eficiência do comércio nesse segundo critério, clique aqui.

Embora o próprio Bhagwati tenha previsto uma possibilidade teórica em que o crescimento do comércio externo poderia empobrecer um país, e diversas outras possibilidades tenham sido descritas (ver, por exemplo, o rol compilado por Elhanan Helpman em seu "The Mistery of Economic Growth), a experiência empírica no pós-guerra indica uma relação entre abertura comercial e crescimento econômico (ver, por exemplo, este relato).

Dessa forma, é interessante pensar porque, embora o comércio internacional seja, de acordo com a evidência disponível, benéfico para os países, eles ainda se empenham em atividades protecionistas. Afinal, como diz Bhagwati, quem impõe medidas protecionistas acaba prejudicando seu próprio bem-estar.

Explicações não faltam a respeito da persistência do protecionismo. Temos, por exemplo, explicações de cunho de economia política: geralmente os prejudicados pelo comércio exterior são relativamente poucos e tem suas perdas concentradas, contra uma massa de consumidores enorme, com perdas dispersas. Por exemplo, quando o governo aumenta  a taxa de importação de calçados e vestuário (aqui), as empresas brasileiras desses ramos se beneficiam enormemente, enquanto os consumidores, que são muitos e, por isso, enfrentam problemas em se organizar (o clássico dilema da ação coletiva), perdem relativamente pouco. Assim, como as empresas têm muito a ganhar e são poucos (logo podem se organizar facilmente), e os consumidores perdem, cada um, apenas alguns reais por ano, é natural que os produtores exerçam intenso lobby junto ao governo, buscando restringir o comércio.

Uma outra possibilidade, como aventada pelo economista Bryan Caplan, é a de que como, talvez explicado pela psicologia (a aversão ao 'forasteiro'), as pessoas naturalmente simpatizam com idéias protecionistas, os políticos aproveitam esse viés para aplicar medidas restritivas de comércio e, assim, ganhar apoio político.

***

O que eu gostaria era de propor uma outra hipótese aqui, que talvez se some às outras já existentes. A base da argumentação é pensar em que aspecto o comércio é semelhante a um jogo do ultimato (jogo no sentido de Teoria dos Jogos).

Retirado daqui, segue uma pequena explicação da essência desse jogo:

"Existe um outro tipo de jogo chamado jogo do ultimato, onde dois indivíduos são chamados para dividir uma quantia de R$100,00, por exemplo. Pelas regras do jogo um dos jogadores faz a proposta de divisão da quantia e o outro decide se aceita-a ou não. Se o outro jogador aceitar a proposta de divisão, ambos ficam com o dinheiro conforme proposto; se ele recusar a proposta, ambos saem com nada. Analisando esse jogo do ponto de vista puramente racional, o jogador que faz a proposta de divisão deve fazer a oferta de menor valor possível enquanto que o outro jogador deve aceitá-la pois receber qualquer valor, mesmo que baixo, é melhor do que não receber nada.

No entanto, pesquisas realizadas com pessoas no mundo inteiro (...) mostraram que a maioria daquelas que fazem a proposta, oferece valores próximos de 50% da quantia inicial, e a maioria das pessoas na posição dos que aceitam ou não uma proposta, rejeita ofertas menores que 30%. Esse resultado é considerado pelos cientistas, sem teor pejorativo, como irracional. Uma das explicações para isso considerada pelos cientistas é que as pessoas, durante a vida, interagem mais de uma vez umas com as outras fazendo com que aqueles que rejeitam ofertas menos justas adquiram uma reputação que favorece o recebimento de ofertas mais justas no futuro."

Ou seja, numa distribuição de benefícios, não importa se eu vou melhorar um pouquinho: se você melhorar muito mais do que eu, e eu perceber essa melhoria como injusta, eu vou puni-lo, mesmo que eu perca meu pouquinho de melhora. Se eu achar R$10 na rua, fico feliz. Se você tiver R$100 para dividir, e me dar apenas R$10, eu prefiro não ganhar esse dinheiro a deixar você sair "impune" com R$90.

Em uma relação comercial, em tese, as duas partes saem ganhando: essa é a essência da idéia de comércio. Eu troco com você porque me beneficio com isso, e você aceita porque se beneficia também. O que não quer dizer, claro, que os ganhos sejam idênticos. Se eu quero comprar uma rede (e estou disposto a pagar no máximo R$30 por ela) e o vendedor me cobra R$29 (embora a rede, para ele, tenha saído por R$13), temos um excedente total de R$17 nessa transação. A distribuição, porém, é desigual: eu ganho R$1 de excedente, enquanto o vendedor ganha R$16. Se eu barganhar com ele para reduzir o preço e ele não aceitar, é capaz de que eu não compre a rede. Do ponto de vista econômico, tal atitude seria irracional, mas seria o preço que eu estaria disposto a pagar para "punir" o "filho da mãe" do vendedor.

Talvez algo parecido exista nas aberturas comerciais. Imagine que o Brasil esteja negociando com a União Européia a abertura de mercados. Vamos deixar de lado as questões políticas por um instante. Imagine que liberar o comércio de carne, por exemplo, represente um ganho anual de US$2 bilhões para o Brasil, e um ganho anual para a UE de US$300 milhões. Temos um ganho econômico para os dois lados aqui, mas ele está distribuído de maneira desigual. Em contrapartida, a UE exige que o Brasil abra o mercado de produtos farmacêuticos. Para a UE, tal abertura representaria um ganho anual de US$2 bilhões, e um ganho anual para o Brasil de US$300 milhões.

O melhor cenário seria aquele em que os dois aceitassem reduzir as barreiras comerciais,em que cada um sairia com um benefício anual de US$2,3 bilhões. Mas, caso alguma dessas negociações emperre (por exemplo, se a UE não aceitar facilitar a entrada de carne brasileira) a parte menos beneficiada pode simplesmente retaliar. Ela poderia, por exemplo, sabotar uma rodada de negociações na OMC. Nesse caso, a UE perderia R$300 milhões, mas o Brasil perderia ainda mais. Embora economicamente irracional, pode ser "justo" na lógica do jogo do ultimato.

Não sei se essa possibilidade teórica tem algum valor explanatório, mas ela é testável. Por exemplo, podemos ver negociações bilaterais de liberalização de comércio. Em caso de grandes assimetrias no ganho estimado, se a teoria acima tiver algum valor, é esperado uma maior probabilidade de impasse do que em outra em que os ganhos estimados sejam relativamente parecidos.´

Essa é uma versão beem inicial do meu pensamento. Não sei se alguém já tinha pensado nisso antes. Críticas e sugestões são bem vindas.


Escrito por Philipe às 18h58
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