Matizes Escondidos

30/01/2008

Fozzy

O biólogo americano Geoffrey Miller tem uma interessante (e complexa teoria, é um bocado difícil comentar aqui  sem dar uma intro de ordem espontânea, difusão gênica e teoria da sinalização), mas que tem como cerne o seguinte ponto: o cérebro é um órgão complexo, que depende de diversos genes para ser corretamente construído. Assim, exatamente por necessitar de informações de diversos genes para se constituir, dá um bom panorama da qualidade genética de um parceiro. Um indivíduo que, acidentalmente, passe a escolher parceiros por algum comportamento que seja expresso principalmente por indivíduos dotados de um cérebro "de boa qualidade", provavelmente deixará mais descendentes ou descendentes mais viáveis do que outro que não se importe com tal comportamento. Isso ocorre justamente porque ter um bom cérebro é uma "proxy" para bons genes em geral.

Então, se temos um indivíduo que escolhe outro a partir de um comportamento/qualidade indicador de "bom" cérebro, esse provavelmente deixará mais descendentes ou descendentes mais viáveis do que os demais indivíduos. Se esse comportamente de preferência for herdável geneticamente, e esperarmos diversas gerações (iterações), podemos esperar que em breve a maioria (todos) os indivíduos irão preferir parceiros que exibam comportamentos que somente podem produzidos por um cérebro saudável.

Miller usa essa teoria para discutir o surgimento de fenômenos distintamento humanos, como a filosofia, a música, a poesia e o humor. Esses são comportamento neurônio-intensivos e que não apresentam valor imediato para a sobrevivência na savana. Discutir a dialética em Hegel (com um toque de Monty Python) não ajuda a achar água para a sua família sedenta.

Assim, esses comportamentos aparentemente não adaptativos seriam basicamente formas de buscar atrair um parceiro.

Devido às diferenças em investimentos parental na prole, em todo o mundo animal, geralmente os homens vão atrás das fêmeas. Ao juntar esse fato com a teoria de Miller, temos supostamente a razão pela qual a maioria dos músicos, poetas e filósofos são homens: eles teriam se especializado, desde tempos remotos, em atrair fêmeas usando essas habilidades neurônio-intensivas. Os mais bem-sucedidos (Chico Buarque?) tendem a ter mais parceiras e/ou parceiras de melhor qualidade.

A teoria de Miller, como disse lá em cima, é complexa, vasta e é muito difícil fazer justiça a ela em texto tão breve. Algum eventual interessado deve procurar o livro "Mating Mind" (em inglês) ou "A mente seletiva", em português

Além disso, como é de notório conhecimento, as fêmeas mamíferas investem muito mais em sua prole (gestação, mais aleitamento mais cuidado até o filhote se torne independente). Assim, criar um filhote demanda mais recursos dela do que do macho mamífero, na imensa maioria das espécies. Logo, faz sentido a fêmea ser bastante caprichosa na hora de escolher um macho: o melhor disponível que detenta bons genes e/ou muitos recursos. Sobre bons genes eu comentei ali em cima uma possível via de escolha. Fêmea buscando recursos, bom, isso é mais fácil de enxergar, corporificado no inconsciente coletivo como a "mulher interesseira".

Toda essa introdução foi apenas para contar a seguinte piadinha infame:

Maria Nerd, na faculdade:

- E aí, gatinha? Quer ser minha minha mitocôndria?

- Uau, que Lattes!

Maria "Garimpeira", do inglês "gold digger", 'garimpeira' ou mulher interesseira, no baile chique:

- E aí, gatinha? Tá vendo esse diamante aqui? Quilates e quilates!

- Uau, quilates!

E VOAM OS TOMATES.


Escrito por Philipe às 21h36
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Vô Cabulário

Da Folha de São Paulo de hoje:

Para ministro, foi "engano" uso em tapiocaria

O ministro Orlando Silva admitiu ter realizado compra indevida com o cartão de crédito corporativo em uma tapiocaria de Brasília. Segundo sua assessoria, ele ressarciu os R$ 8,30 aos cofres públicos em outubro.

Gente, uma tapiocaria! Eu nunca tinha ouvido falar de tal estabelecimento.

Ok, o ministro cometeu um deslize ético/administrativo/jurídico. Mas pelo menos enriqueceu.  Enriqueceu o vocabulário de muitas brasileiros, claro! O meu, por exemplo.


Escrito por Philipe às 21h02
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28/01/2008

O que a terra e a a habilidade de decorar artigos da constituição como ninguém têm em comum? São todos recursos fixos. Insight por Steven Landsburg

De http://www.gamingmmo.com/wp-content/uploads/2006/11/queue.jpg. Não sei que cidade que é essa.

Nada na vida é de graça.

Nada na vida é de graça? Hum, não se a situação for Pareto-ineficiente, mas deixe isso para lá.

Vamos tentar de novo: Nada na vida é de graça.

Há alguns anos atrás, eu queria ir ao Festival de Cinema de Tiradentes. Eu conhecia a cidade antes da fama global [;)] por causa do simpático e adorável passeio de trem, sabia que era um lugar gostoso, agradável, etc. Além disso, é legal ver bons filmes, sejam eles curtas, médias ou longas, principalmente se são pré-estréias e de graça.

"Opa, lá vou eu", pensei. Antes de começar a procurar juntar um grupo para ir para Tiradentes, eu comecei a procurar na internet quanto ficaria a hospedagem por alguns dias.

Foi aí que eu quase caí para trás. Os aluguéis de casas e a diária de pousadas e hotéis era proibitivamente (pelo menos para mim), caros. Muito mesmo, não dava para ir.

Ou seja, o fato do festival ser "gratuito" quer dizer que você não paga as entradas, não que a brincadeira toda saia barata. Você economiza no ingresso, mas paga, por exemplo, na hospedagem supercara. A característica (problema?) desse tipo de evento é que, ao não precificar seus serviços ou atividades, ele promove uma redistribuição de riqueza que não necessariamente é a mais eficiente. 

A teoria econômica diz que, no longo prazo e em equilíbrio, todo o lucro econômico (diferenciado de lucro contábil) vai para aqueles que detém ativos que não podem ser copiados, os chamados recursos fixos. Um dos principais dele é a terra. Se o aluguel de casas na minha cidade está caro, vou aproveitar e construir uma para alugar. Acontece que, se todos pensam assim, em breve a cidade está cheia de casas novas. Com a grande oferta de moradia, o aluguel, que estava caro, cai.

Entretanto, o que acontece se por acaso o terreno disponível para construir acabar? É essa, simplificadamente, a situação de Belo Horizonte: praticamente não há mais como construir em BH. O que acontece? Se a demanda por moradia cresce, o preço dos aluguéis sobe, mas, como não há como construir mais casas e prédios, ele permanece alto. Ganha quem é dono de terrenos, perde quem precisa pagar aluguel.

Tiradentes é cidade histórica, assim, creio, deve ter muitas restrições quanto à construção de novos imóveis. Vamos considerar que não se pode construir mais nada por lá: o estoque de moradias está fixado.

O festival de cinema tem entradas gratuitas. Como assistir ao filme e desfrutar do ambiente agradável de Tiradentes é um bem, as pessoas estariam, presume-se, dispostas a pagar por entradas para o cinema. Quando o preço é fixado em zero para o cinema, temos que a demanda por cinema extrapolda a oferta de lugares para o espetáculo. Sim, sempre fica muita gente de fora das exibições. O que não se raciona por preço se raciona por outras maneiras, como por fila ou escassez, mas essa é uma outra história.

Quando é anunciado que a cidade passará a sediar o festival de cinema, o preço da moradia sobe. Devido às restrições de construção, o preço da moradia permanece alto. Durante o evento (em janeiro) o preço da estadia dispara. Geralmente quem é dono de imóveis na cidade, ganha. Mas mesmo eles podem perder: imagine uma senhora idosa, que não deseja sair da cidade e que vê seu imóvel duplicar, triplicar de preço. Ela pode vir a ter problemas com o pagamento de IPTU, que é proporcional ao valor do imóvel. 

Assim, quem quer assistir ao festival, embora realmente não pague entradas para os filmes, deve chegar bem cedo na fila e pagar um bom dinheiro às pousadas ou locatários de casas, pela sua estadia. O valor que é gerado pelo festival é distribuído de tal forma que ganha quem já estava por lá mesmo e pode alugar a casa.

É como um exemplo dado por Tim Harford, para a Inglaterra. Quando uma escola pública "gratuita" adquire fama de ser uma boa escola, o preço dos imóveis em seu entorno se valoriza, pois quem mora perto da escola tem maior chance de conseguir uma vaga. A escola para os pais não sai de graça, pois, embora não precisem pagar à escola pela educação, acabam por pagar aos donos de imóveis do entorno. Temos, assim, uma distribuição de renda no sentido famílias com filhos => donos de imóveis. Os donos de imóveis, claro, não estão prestando serviços de educação para os filhos das famílias.

Voltando a Tiradentes e aos filmes grátis, temos um outro problema...

Imagine que alguém esteja realmente a fim de ver um determinado filme alfa no festival. Pode ser porque o vizinho dele aparece no filme, ou porque conhece e ama o livro de onde adaptaram a obra. Por qualquer razão, essa pessoa estaria disposta a pagar, digamos, vinte e cinco reais para ver o filme.

Já outra pessoa quer ver um filme qualquer. Ela está indo ver o filme alfa só porque ouviu dizer que era bonzinho, ou porque iria passar mais perto de onde ela estava hospedada. Como o filme, para ela, não era muito especial, ela estaria disposta a pagar, no máximo, só três reais para ver o filme.

Acontece que a primeira pessoa, que quer desesperadamente ver o filme, teve um problema "estomacal" e teve que passar vinte minutos no banheiro. Quando ela chegou à bilheteria, já não havia ingressos. O último ingresso foi retirado pela outra pessoa ali de cima, que estava indo assistir ao filme só porque era perto da casa onde estava.

Ora, lógico que aí temos uma perda de bem estar. Quem mais queria ver o filme, por um acidente do destino, irá ficar de fora, enquanto uma outra que nem sabe o nome do mesmo, irá vê-lo no seu lugar. E, aposto, se a pessoa que, desesperadamente, quer ver o filme, tentar comprar o ingresso de alguém, vai ser olhada com cara feia... E, se por acaso alguém vender, vai ser chamado de "cambista espertalhão".

Por outro lado, acho que parte da graça (e assim, do valor, do festival) está na bagunça que ele gera, na quantidade de pessoas que traz, etc. Se os ingressos fossem cobrados, talvez o festival não se diferenciasse muito de uma mostra em um cinema na Savassi, onde só aparecem uns gatos pingados.

De qualquer forma, pretendo ir ano que vem. Se o dinheiro der (e agenda, também).


Escrito por Philipe às 17h46
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Compreendendo as empresas até o chão-chão-chão!

Junto com o post sobre "invernizar" e sobre a Áustria e a Austrália, mais um para a série "indo para o céu".

Eu estava assisitindo à TV outro dia quando passou um comercial estilo (011) 1406 de uma furadeira. Entre os diversos predicados da maquininha, estava um conjunto completo de acessório em titâneo.

A minha primeira reação foi algo do gênero "que podre!". Mas não é julgando as pessoas que se vai para o céu: precisamos dar a elas o benefício da dúvida.

Embora não tenha comprado a furadeira-maravilha, creio que que o tal titâneo deva se tratar de uma nova liga metálica. Ora, todo mundo sabe que o nome do elemento químico, metal, é titânio, com 'i'. Assim, devemos buscar a origem de titâneo em outro lugar.

Salvo engano, me lembro que a partícula "neo" é um afixo que significa "novo". Provavelmente o pessoal da Furadeira S/A inventou alguma nova (viu, nova) liga metálica que inclui titânio para uso em seus produtos. Em um lance de marketing, deu a esse material o nome de titâneo®. Esse nome invoca tanto a idéia do metal principal de sua liga, o titânio, como a idéia de novo, de inovação, expresso pelo afixo "neo".

Aliás, eles vão além. "Neo" é um prefixo, ou seja, deveria vir antes dentro da palavra. Mas em titâneo, esse afixo "neo" foi usado depois. Ora, sem dúvida trata-se de um avanço. A língua não é estática, morta. Por que não usar "neo" como sufixo também, não só como prefixo? Além de inventar uma nova liga metálica (estou certo disso), a Cia. de Furadeiras S/A fez como Guimarães Rosa: inovou na língua.

Você pode estar duvidando da sinceridade dessa interpretação. É por isso que você não vai para o céu. Dê a quem merece o benefício da dúvida. E tenho dito!

Sim, FreeBSD.


Escrito por Philipe às 16h24
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