Matizes Escondidos

12/01/2008

Compreendendo as pessoas até o chão-chão-chão!

Outro dia eu presenciei um diálogo entre duas mulheres, que foi mais ou menos assim:

- Ouvi dizer que o seu marido está no exterior...

- Pois é, ele viajou. Ele foi para a Áustria ou Austrália, não lembro bem. Mas é um desses da Europa.

Confundir Áustria ou Austrália, e, ainda mais, por supostamente serem todos países europeus, tende a eriçar os pêlos de um observador desatento. Sim, esse mesmo observador poderia, inclusive, ser tentado a gritar "anta!", ou coisa parecida.

Um pouco de reflexão, entretanto, mostra que, longe de ser uma anta, a moça cuja marido viajou é, na verdade, um culta sociólogo de matriz conservadora.

Em 1993, um cientista político americano, Samuel Huntington, escreveu um influente artigo na prestigiada resvista Foreign Affairs, afirmando que, no mundo pós-Guerra Fria, os conflitos ocorreriam por diferenças culturais e religiosas, e que, além disso, os conflitos não se dariam entre estados-nação, mas entre sistemas culturais e religiosos diferentes. A esses sistemas ele deu o nome de civilização, e distingue oito, como a civilização ocidental, a latino-americana, a islâmica, a japonesa, etc.

Além disso, e independentemente do argumento acima, sabemos que a matriz cultural do mundo ocidental deriva em grande parte da cultura clássica greco-romana. E Grécia e Roma se localizam na Europa.

Juntando tudo temos que a mulher, adepta de um pensamento mais conservador (não estou discutindo o mérito da idéia de Huntington), enxerga o mundo sob a ótica das civilizações. Nessa lógica, não faz diferença se o marido dela vai para a Áustria ou para a Austrália: estão todas sob a mesma matriz cultural ocidental. E mais: se consideramos que essa matriz surge na Europa, podemos dizer, sim, que a Austrália fica na Europa.

À medida que os custos e os inconvenientes de se viajar vão sendo reduzidos, faz sentido pensar mais, locacionalmente falando, em termos culturais do que meramente espaciais.

***

Você pode até achar que eu estou exagerando, mas acredito que nós temos que enxergar o melhor de cada pessoa. Mais sobre o tema aqui.


Escrito por Philipe às 09h15
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10/01/2008

Estar de olho eu estou, mas...

Bryan Caplan discute cinco supostos mitos do comportamento do eleitor, aqui:

1. Os eleitores são autointeressados;

2. O voto abnegado resolveria os problemas;

3. Os erros dos eleitores se cancelam;

4. As discordâncias políticas são a respeito apenas de valores;

5. Os eleitores querem mudança.

***

De olho nos candidatos? Ah, é? Eu acredito mais nisso aqui. Pouco adianta correr atrás deste ou daquele político ladrão/imoral/corrupto enquanto as regras e leis geram incentivos exatamente para esse tipo de comportamento.

Você coloca cinquenta motoristas que nunca tinham batido antes para dirigir um mesmo modelo de carro. O primeiro bate. O segundo também. O terceiro, que tinha fama de ser um excelente motorista, bate também, assim como o quarto, o quinto... Todos, até o último, batem o carro.

O que você conclui? Que todos os motoristas são barbeiros? Ou que o carro tem algum problema?

Hum, tinha prometido no início do blog (aqui) evitar falar de política, mas às vezes eu fraquejo. Que seja.


Escrito por Philipe às 19h28
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09/01/2008

A onda

Experimento assustador este aqui, o teste de conformidade de Asch.

Ah, para quem tiver um tempinho e vontade, e não conhecer o experimento clássico da prisão de Stanford, de Zimbardo, vale a pena ler sobre, aqui


Escrito por Philipe às 21h08
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08/01/2008

Odontológicas

Dia desses eu extraí meu dente ciso.

Enquanto a dentista se preparava para extrair o dente, ela me deu umas injeções de anestesia e colocou um aparelho para manter a boca toda aberta. Embora ela se mantivesse calada durante o procedimento, o evento me lembrou quando eu usava aparelhos ortodônticos.

O dentista colocava um monte de ferros e outros apetrechos na boca, a ponto de eu ter de microgerenciar o fluxo de ar que passava na garganta para não engasgar ou engolir. Apesar de estar com a boca notoriamente ocupada, isso não impedia o dentista de tentar conversar comigo:

- Ah, você faz faculdade, não é mesmo? Em faculdade pública ou particular?

E eu:

- Nnhaforgalah.

- E o mercado, está bom para o seu ramo?

- Monaodjo? Pioahdndia.

Como vocês podem imaginar, não é exatamente a coisa mais fácil do mundo conversar quando a sensação que se tem é de ter uma bola de tênis na boca. Assim, nunca dava para conversar muito com o dentista.

Aposto que quando ele me vê na rua, e eu o comprimento, ele pensa algo do gênero "Ah, é, era meu paciente. Calado ele, aliás".


Escrito por Philipe às 15h11
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Cracked.com

Um bom site de humor é o www.cracked.com. É hilário e inteligentemente sarcaz...

Estava dando uma lida hoje e encontrei dois artigos que acho que vale a pena conferir:

1. Este aqui, sobre as piores dietas de todos os tempos, incluindo engolir ovos de tênia. E, acredite, tem gente (aqui), que ainda usa tal método de emagrecimento...

2. E este aqui, sobre empresas que ganharam um trocado sob o horror nazista. Se bem que, como notam os autores do artigo, a coisa é tão séria que nem chega a ter graça, apesar das piadinhas.

O inglês do site é meio complicado, mas com um dicionário, como os do www.englishforum.com, dá para acompanhar.


Escrito por Philipe às 14h48
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06/01/2008

Comprar Computador da Dell - Discriminação de preços - Repostagem

Eu acho muito *divertido* o site de vendas online da montadora de computadores Dell. Na falta de um Starbucks por perto (clique aqui para saber do que eu estou falando), ele me parece o caso mais claro e que me é mais acessível da nossa amiga discriminação de preços.

O que vem a ser discriminação de preços? Não, não é falar mal nem xingar os preços (embora tenha muito político por aí que ache que os preços servem para as grandes empresas malvadas garfarem e garfarem sempre e sempre o pobre consumidor). É uma estratégia de vendas interessante, que visa dar um preço a cada cliente, dependendo do quanto ele está disposto a pagar.

Por exemplo, imagine que o primo rico e o primo pobre estejam em uma loja para comprar uma camisa, cada um. O primo pobre está disposto a pagar, no máximo, 20 reais pela peça, enquanto o primo rico pode pagar até 90 reais. Se a loja vende camisas a 20 reais, tanto o primo rico quanto o primo pobre podem comprar uma peça. A loja tem de receita 2 x 20 = R$40. A loja deixou de ganhar mais os 70 reais que o primo rico estava disposto a pagar, pois ele levou a camisa pelo mesmo preço do primo pobre.

Se a loja cobra 90 reais pela camisa, o primo pobre não pode comprar, mas o primo rico, sim. Nesse caso, a receita da loja é de 1 x 90 = R$90. A loja fatura noventa reais, mas deixa de ganhar vinte reais a que o primo pobre estava disposto a pagar.

Mas, digamos, que todas as camisa sejam de mesma qualidade, mesmo tecido, etc. Se a loja coloca, por exemplo, uma etiqueta ZungaFashion em uma camisa e a vende por R$20, enquanto coloca uma etiqueta Zoomp em outra e a vende por R$90, algo interessante ocorre. Tanto o primo pobre como o primo rico saem com suas camisas, e a loja tem o seu faturamento máximo, (1 x 20) + (1 x 90), de R$110. Ok, temos ainda a questão do status de se vestir uma roupa cara, etc, mas não vamos discutir essa questão hoje.

Eu conheço um caso em que uma confecção fabricava cintos e os vendia por, digamos, R$30, quando recebia uma etiqueta de marca simples, enquanto o mesmo cinto era vendido por, digamos, R$120, quando recebia uma etiqueta de marca famosa.

A idéia da discriminação de preços é essa: usar mecanismos que sejam desenhados a fazer o consumidor pagar o máximo a que ele está disposto desembolsar.

Depois dessa pequena introdução (eu recomendo mesmo é isto aqui...), vamos à Dell.

A Dell tem uma site de vendas online aqui. Passando o olho, eu me surpreendi como alguns dos preços praticados eram muito baixos. Hoje, por exemplo, temos um computador à venda por R$796,31 + frete (sem monitor), ou um de R$1059 + frete (com monitor). Não é muito mais caro que o colega ali da esquina, do chamado mercado cinza, não é mesmo?

Vamos dar uma olhadinha no computador mais barato, o de R$796,31 + frete, sem monitor. Quando você clica para abrir a página da oferta, você vê que se pode alterar a configuração padrão do computador. Ele vem de fábrica com um processador Sempron 3600+. Pesquisando online, eu encontro que o preço desse processador está por volta de R$130. Ele pode ser trocado, por exemplo, por um Athlon X2 3800+, que sai por volta de R$200. Só que, na hora de calcular o preço do computador com o novo processador, que é melhor, o preço não sobe só R$70. Sobe R$ 102,99, ou 47% mais do que seria esperado. Vamos melhorar mais ainda o processador, para um Athlon X2 4400+, que sai por cerca de R$240. Assim, seria de se esperar que o preço do computador subisse, ao trocar a peça, por volta de R$110. Na hora de se recalcular o preço, porém, ele sobe para R$999,01, uma diferença de R$229,7. Ou seja, mais de 100% mais caro do que seria esperado considerando o preço das peças.

Vamos fazer o mesmo procedimento para o disco rígido. O disco rídgido padrão da máquina é um de 80 GB, 7.200 rpm, SATA-II, que custa cerca de R$145. Vamos trocá-lo, na página da Dell, para um de 160GB. Na "vida real", um HD de 160 GB custa cerca de R$170. Assim, esperaríamos uma diferença de R$25 na hora de trocar o HD. Quando o fazemos, porém, no site da Dell, o preço sobe R$99,46, ou 398% mais do que seria esperado. Vamos agora trocar o disco de 80 GB por um de 250 GB. Na "vida real" um disco de 250GB sai por volta de 223 reais. Ou seja, ao trocarmos um HD pelo outro, esperaríamos um aumento de cerca de R$ 78 no preço da máquina. O preço no site da Dell aumenta R$147,97, ou 89,7% a mais do que seria esperado.

Por fim, vamos fazer esse procedimento com o preço da mídia ótica. O computador padrão tem apenas um leitor de DVD. Como é muito difícil achar o preço de um leitor de DVD simples (que não seja combo), vamos supor que custe o mesmo que um leitor combo (lê DVD e grava CD). Ou seja, estamos adotando uma postura conservadora aqui em relação ao aumento de preços, visto que o preço que a Dell paga no tal leitor de DVD deve ser bem menor do que o preço que atribuo aqui. Iremos supor que o tal leitor sai por R$82. Um gravador de DVD, como o que a Dell oferece como melhor upgrade para mídia ótica, sai por cerca de R$125. Esperaríamos que o preço do computador aumentasse em cerca de R$48. No site da Dell, entretanto, o upgrade sai por inacreditáveis, R$252,25, ou 525% mais caro do que na vida real.

O meu palpite? Tal diferença deve surgir da tal discriminação de preços. Se você for ao site da Dell procurando um computador barato, você vai encontrar. Mas se você começar a mostrar, através dos seus upgrades, que têm dinheiro para gastar, o preço do computador vai aumentar muito, para ver se "cola". Se você comprar o computador mais caro, "colou" e a Dell deve faturar uma boa margem. Assim, o site tem computador tanto para o primo pobre como para o primo rico, e fica esperando que você se "entregue" como o primo rico mostrando que deseja ter uma máquina mais possante.

Mas espere antes de espernear e falar que a Dell "explora" o consumidor. Um vendedor só consegue discriminação perfeita de preços quando há monopólio. Quanto maior a concorrência, menor o poder de mercado das firmas e menor é o espaço que elas têm para discriminar preços. Ora, há diversos outros vendedores de computador por aí. Felizmente, não temos que comprar computador de um monopólio com o nome de "Empresa de Computadores do Povo". Não gostou do mecanismo da Dell? Faça como eu, compre o seu computador em outro lugar. Como diz Tim Harford, se você não se incomoda de pesquisar preços, não tem que se incomodar quando lhe derem uma garfada.

Mas, se a Dell não é um monopólio, como eles conseguem discriminar preços? Eu acho que o diferencial deles é o suporte técnico e de instalação, muito bom, o que faz diferença para um usuário de primeira viagem, exatamente o menos capacitado para conseguir perceber o grande aumento de preços que ocorre quando se monta uma máquina não-básica no site. Assim, talvez eles tenham poder de mercado em relação aos usuários novatos, leigos.

 


 

Bônus post: legal também comparar o preço de fretes da Dell... Digamos que um colega de Manaus não irá querer comprar um computador deles online...

Frete Dell para São Paulo

Frete Dell - Minas Gerais

Frete Dell - Amazonas


Escrito por Philipe às 20h24
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