Matizes Escondidos

04/10/2007

Dinheiro na mão é vendaval- Psicologia Evolutiva

Uma versão revisada e editada do texto a seguir pode vir a ser publicada. Comentários e correções são bem-vindos. O texto ainda está na versão beta (precisa ser lapidada, mas coloco aqui caso alguém anime de ler. Lembrem-se, é uma versão beta, ainda não revisada. Cheers.

Dinheiro na mão é vendaval

Dinheiro na mão é vendaval
É vendaval
Na vida de sonhador
De um sonhador
Quanta gente aí se engana
E cai da cama como toda ilusão que sonhou
E a grandeza se desfaz

Dinheiro na mão é vendaval? Eu não sabia exatamente o que esse dito popular queria dizer. Uma rápida busca na Internet resulta em páginas e páginas sobre o descontrole que muitas (a maioria?) das pessoas demonstra quando tem muito dinheiro em mãos.

Descontrole? Em algum momento da minha carreira de estudante, um professor definiu o que é chamado de homo economicus. Tal figura seria um indivíduo extremamente racional (no sentido de adequar meios a fins), com capacidade cognitiva assombrosa para fazer o que desejasse. E o que é que ele quer? Ele quer ganhar e gastar dinheiro da melhor maneira possível, de forma a aumentar ao máximo possível a sua utilidade, que seria a soma da satisfação que o usufruto dos seus recursos proporciona. Sim, o homo (ou hetero, a teoria não diz nada sobre a orientação sexual do indivíduo) economicus saberia exatamente como gastar cada centavo do seu dinheiro para maximizar a tal da utilidade. Nessa lógica, não há espaço para desperdício ou engano: o homo economicus sabe dar o melhor destino para seu dinheiro. Nada de vendaval.

Tal modelo é usado em diversas áreas da economia como forma de se aproximar da maneira como as pessoas fazem (ou fariam) escolhas e opções. Por exemplo, se o homo economicus vai à feira, ele sabe o que ele prefere: quatro laranjas e três maçãs ou três laranjas e quatro maçãs. Ele não se arrepende na hora de chegar em casa e guardar as compras, afinal ele tem um invejável arsenal cognitivo que conhece plenamente suas preferências, e, o que é importante, essas preferências se mantêm estáveis no tempo.

Nesse momento, o eventual leitor deve estar pensando que o tal homo economicus pode até ser um cara legal, só que não é lá muito comum. Afinal, ele não conhece ninguém que se aproxime de tal ideal, a começar por si mesmo. Mas ele provavelmente conhece alguém que, com dinheiro na mão, fez o tal vendaval, e em breve gastou muito (ou tudo) que foi ganho, herdado, ou, quem sabe, roubado. Será que o modelo faz algum sentido? Será que a ação do tal conhecido perdulário faria sentido? Não tenho a pretensão de responder tais indagações, mas desejo compartilhar alguns pensamentos.

Um ramo interessante do conhecimento é a tal da psicologia evolutiva. Ela busca estudar como os comportamentos das pessoas podem (ou não) ser explicados dentro de uma lógica evolutiva. A abordagem busca analisar o que faz ou fez sentido durante a evolução humana, e como isso afetou a sobrevivência e reprodução das pessoas. Se a economia estuda como as pessoas respondem a incentivos e motivações, a psicologia evolutiva explica a origem das motivações e das respostas das pessoas a esses incentivos. É apenas questão de tempo até que os melhores cursos de economia comecem a incluir cadeiras de psicologia evolutiva ou da sua prima, a economia comportamental.


Não dá para explicar rapidamente o mecanismo de como a evolução influi as nossas ações e pensamentos, mas quero ilustrar o básico da coisa com um exemplo. Peguem o sal. As pessoas hoje em dia adoram comer uma comida salgadinha. Só que todo mundo sabe que o sal faz mal se ingerido em excesso. Bom, se você acreditar no nutricionista que vai ao jornal da hora do almoço, todo mundo come sal em excesso. As pessoas adoram sal, mas sabem que faz mal, contudo continuam comendo. Teríamos aqui um paradoxo?

Um jeito de tentar explicar isso, e é um jeito que creio que está essencialmente certo, é tentar voltar no tempo e imaginar como viviam nossos ancestrais, o que eles faziam e o que eles nos legaram. Tal método pode nos fornecer alguns insights interessantes.

O fato é que o sal é necessário (na verdade, seus componentes são necessários) para o bom funcionamento do corpo. O diacho é que os humanos, na maior parte da sua história, estavam evoluindo (na verdade evoluir é um termo meio impreciso, mas vamos usá-lo aqui) no meio do continente africano. Ganha pontos quem lembrar que, no interior de um continente, é muito difícil arrumar sal. E sem sal, as pessoas morrem. O que fazer?

Digamos que temos dois grupos de humanos primitivos, isso há uns duzentos ou trezentos mil anos atrás (e você que achava que a sua avó era velha!). Suporemos que um grupo desses adora o sabor do sal, enquanto o outro grupo não acha lá grandes coisas e ainda chama o gosto dele de “modinha passageira, daqui a uns milênios ninguém vai se lembrar dele”. O fato é que o sal é importante para a sobrevivência, como dito ali em cima.? O grupo que gosta do gosto do sal, quando achar um pouco de comida com sal, irá comer bastante (exatamente como você faz com a batatinha frita que compra na lanchonete). O outro grupo, quando achar um pouco de sal, irá comer pouco ou nada. O resultado? Como o sal é escasso, o primeiro grupo não desenvolve hipertensão e, como sal é importante, sobrevive em maior proporção do que o segundo grupo. Se o gosto pelo sal é genético e passa de pai para filho, os descendentes dos pré-adoradores de McFritas também irão gostar de comida salgada. Bom, tudo leva a crer que os filhos dos adoradores de sal somos nós, humanos modernos... A evolução, ao longo de muitas e muitas gerações, foi selecionando aos poucos as características mentais que fossem adequadas ao ambiente evolutivo.

Só que não era só o sal que era escasso naquela época. Oog, seu tatatatatataravô, devia sofrer um bocado, pois a comida também era escassa. Nem sempre havia frutas, comidas e caça. E, quando havia, essa perecia rapidamente, pois não havia como conservá-la. Lembre-se, a geladeira só foi inventada daí a umas boas centenas de milhares de anos.

Ora, se o que temos nas mãos irá acabar em pouco tempo, faz sentido se esbaldar e comer tudo o que conseguir. Não coma tudo que conseguir e amanhã tudo poderá ter apodrecido...

Além disso, se levarmos em consideração que a expectativa de vida naquela época era bem baixa, fazia muito sentido ser perdulário. “Viva intensamente, afinal, se uma cobra lhe picar amanhã, ainda não há Instituo Butantã”. A taxa ótima em que se desconta o futuro, nesse passado remoto, era tal que fazia sentido se importar muito com o presente e futuro próximo, e nem tanto assim com o futuro distante.
Se você for parar para pensar, taxa ótima de desconto intertemporal, cálculo de probabilidades...  O comportamento do homem primitivo lembra um bocado o do homo economicus, não é mesmo? Além disso, comer muito sal e esbanjar recursos (que, lembre-se, são comportamentos no passado evolutivo) lembra muito o que nós, humanos modernos, fazemos!

O fato não é de que se as pessoas são ou não homo economicus. A evolução teve bastante tempo para nos guiar em uma direção altamente otimizada para um mundo de escassez. O problema (problema?) é que, nos últimos séculos, o mundo é cada vez menos marcado pela escassez. Séculos é um tempo curto demais para que a evolução consiga operar a sua lógica otimizadora em um órgão tão complexo quanto a mente. Assim, vivemos como se a possibilidade de estar vivo daqui a dez anos fosse baixa (o que era verdade no passado evolutivo), mas o fato é que essa probabilidade (felizmente) hoje é bem alta.

A moral da história? Talvez sejamos mesmo uma espécie de homo economicus, só que a nossa lógica pré-programada é adequada a um mundo ancestral que não existe mais. Nesse mundo ancestral, fazia todo o sentido fazer todo o vendaval possível, antes que seus recursos virassem brisa.

Nossa programação de fábrica é de gastar mesmo. Fazer vendaval. Só que tal lógica fazia sentido há milênios, mas que hoje não faz mais. Se naquela época os recursos, como as frutas e carne, estragavam com o passar do tempo, os recursos de hoje (como o dinheiro) rendem juros ou pelo menos podem ser conservados de uma maneira ou outra. Ou seja, faz mais sentido não fazer vendaval. Se as pessoas o fazem, é por influência da nossa mente ancestral. 

É interessante notar que, quando o custo de agir baseado em impulsos primitivos é alto, as pessoas se ajustam mais rapidamente. No mercado financeiro, por exemplo, as movimentações, na maior parte do tempo, são aquilo que se esperaria do modelo tradicional de homo economicus, plenamente informado e hiperracional. Lembrando de que a meta do homo economicus é apenas “maximize a sua utilidade”, o impressionante não é que esse modelo clássico falhe na hora de escolher o corte de picanha ou como gastar o salário do mês, mas sim que seja tão simples e preciso para decisões tão complexas quanto aquelas do mercado financeiro. 

Assim, podemos dizer que, em boa parte, as pessoas são, sim, homo economicus, só que parte da nossa pré-programação de cálculo não é a ideal para o mundo atual. A boa notícia é que, com as estruturas de incentivo certas, podemos cooptar nossa mente ancestral para os nossos melhores interesses, no estado atual das coisas. O exemplo clássico é aquele em que empregados aderem em maior número a uma oferta fundo de pensão empresarial (que é uma estratégia de fugir da mentalidade de vendaval) se a sua opção padrão é de aderir ao plano (e depois optar por sair, se for o caso), do que quando a sua opção padrão é não aderir (e depois optar por entrar, se for o caso). Mas essa é uma questão para os economistas comportamentais. 


Escrito por Philipe às 19h15
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Associativismo Horizontal

Eu gosto de demografia. O site no qual eu queria entrar era no do Instituto Brasileiro de Estudos Populacionais, que é o www.ibep.org.br. Por engano, eu entrei no www.ibep.com.br... Cara, fantástico! Uma associação paraense de exportadores de pimenta do reino! Putnam ficaria emocionado com tamanha demonstração de associativismo horizontal.

O detalhe é o contador de visitas do site. =)


Escrito por Philipe às 06h37
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02/10/2007

Parece Dias Gomes

Da Folha Online:

Governador do DF demite o "gerúndio" por decreto 

O governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM), tomou uma decisão que chamou a atenção de quem leu a edição de hoje do "Diário Oficial" do distrito: demitiu o "gerúndio" de todos os órgãos do governo. O decreto com a nova medida também proíbe o uso do gerúndio por desculpa de "ineficiência".

O governador está fora de Brasília e não pôde comentar a nova medida.

O gerúndio é um tempo verbal formado pelo sufixo "ndo" que indica continuidade de uma ação. O uso do gerúndio se tornou comum e demonstra imprecisão de uma atitude como, por exemplo, "vou estar verificando" em vez de "vou verificar".

Leia a íntegra do decreto:

"Decreto nº 28.314, de 28 de setembro de 2007.

Demite o gerúndio do Distrito Federal, e dá outras providências.

O governador do Distrito Federal, no uso das atribuições que lhe confere o artigo
100, incisos VII e XXVI, da Lei Orgânica do Distrito Federal, DECRETA:

Art. 1° - Fica demitido o Gerúndio de todos os órgãos do Governo do Distrito Federal.
Art. 2° - Fica proibido a partir desta data o uso do gerúndio para desculpa de INEFICIÊNCIA.
Art. 3° - Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.
Art. 4º - Revogam-se as disposições em contrário.

Brasília, 28 de setembro de 2007.

119º da República e 48º de Brasília
JOSÉ ROBERTO ARRUDA"

Como diria o José Simão: Rarararará! Parece Dias Gomes!


Escrito por Philipe às 06h47
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01/10/2007

Ciência Social e Fractal

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/f/fd/Von_Koch_curve.gif/205px-Von_Koch_curve.gif

Quando ocorre alguma chacina ou outro evento de arrepiar os cabelos, é batata que um jornal vai chamar um especialista* em segurança pública para dar sua opinião sobre as origens da violência no Brasil, na sociedade pós-moderna pós-industrializada relativista, etc. Invariavelmente, o nosso querido especialista solta uma ladainha, um palavrório regado de 'social' aqui e ali, que, no geral, quer dizer o seguinte: "fui eu quem me denominou especialista. Eu não tenho a menor idéia do que estou falando".

Mas a minha parte preferida é quando eles dizem que é "difícil atribuir uma causa à violência, pois se trata de um fenômeno muito complexo e, assim, impossível de se definir razões claras." Nessa hora o nosso especialista arruma os óculos e olha para a câmera. Ele com certeza está aliviado, pois deu uma resposta evasiva que geralmente 'cola'.

Hummm... Vejamos. Um fractal é uma imagem extremamente complexa, com muitas nuances e peculiaridades. Entretanto, chegamos a essa figura complexa através da aplicação de uma fórmula matemática, repetidas vezes. Isto é, através da aplicação de um princípio ou fórmula (geralmente simples) repetidas vezes, chegamos a uma figura muito complexa. Da wikipedia.org (em português):

Um fractal (anteriormente conhecido como curva monstro) é um objeto geométrico que pode ser dividido em partes, cada uma das quais semelhante ao objeto original. Diz-se que os fractais têm infinitos detalhes, são geralmente auto-similares e independem de escala. Em muitos casos um fractal pode ser gerado por um padrão repetido, tipicamente um processo recorrente ou iterativo.

O que o nosso especialista está fazendo é olhar o fractal e dizer "essa imagem é tão complexa que ninguém dá conta de descrever", o que, sinceramente, acho que pode ser verdade. O ideal seria buscar, assim, os princípios básicos desse fenômeno que, aplicados iteradamente, dão origem ao quadro analisado, esse sim muitas vezes inescrutável a olho nu.  

O exemplo da violência foi apenas o que me veio à cabeça. Pode ser que o meu exemplo possa ser inexato, mas acredito que o raciocínio do resto do post está correto. Sobre o que poderiam ser alguns princípios da violência, que tal aqui, aqui e aqui.

* Claro que que deve existir muito especialista sério por aí. Só que eu não os conheço.


Escrito por Philipe às 18h54
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Carpe diem

You are the dancing queen, young and sweet, only seventeen
Dancing queen, feel the beat from the tambourine
You can dance, you can jive, having the time of your life
See that girl, watch that scene, dig in the dancing queen

1. A mente humana é muitas vezes orientada por arquétipos: magos, dragões, rainhas, dominatrizes, cavaleiros da armadura reluzente em cavalos brancos, etc. Enquanto isso, a vida cotidiana é imprimir boletos e lavar banheiros.

2. Pode-se ver uma foto e imaginar como tudo está tão bem, mas, geralmente, as coisas fluem por debaixo da superfície, a terra tremendo sob os pés desatentos do espectador... Às vezes, tudo está no fio da navalha, passeando por cima do gelo fino.

3. Nada me é mais chocante que ver a transição de uma menina que, meses atrás, brincava de boneca e amava seus bichinhos de pelúcia, agora trocando fraldas do novo querido. A transição de fofuras às vezes me parece tão inacreditável...

4. Quando se é criança, muitas vezes tudo tem um toque de magia. O desafio, mesmo, é crescer e não perder uma ponta de encantamento, dúvida, e salvar a sua alma...

5. Repost:

É interessante como, no momento, tudo parece para sempre. As pessoas, a praça, aquela conversa agradável, o riso fácil, o sorriso sincero. E assim que deveria ser sempre. É assim que vai ser. Sempre.

Agora vai.

Mas depois, você pode reunir as mesmas pessoas, o mesmo lugar, o mesmo espírito, e as coisas vão sair completamente diferente. O mais complicado é quando você junta todo mundo exatamente para ser igual àquela vez. E não vai ser assim.

Ressuscitar o momento é tão difícil quanto ressuscitar alguém.

No fundo, são pequenas coisas que tornam os momentos inesquecíveis. Colha o dia, ele pode não vir de novo. E aproveite o momento, ele não vai voltar.

6. Repost:

Mas no fim, claro, não devemos ser irresponsáveis. No ambiente em que os humanos evoluíram (é, tipo Darwin mesmo), fazia sentido ser imediatista, pois a vida era curta e não se sabia se viveríamos até o outro dia. Mas hoje em dia, com as comodidades modernas, viver até os cabelos grisalhos é regra, não a exceção. Assim, temos de pensar também no amanhã.

7. Dancing Queen ali em cima foi uma homenagem para o Igor 'Kaze'. =)


Escrito por Philipe às 18h32
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