Matizes Escondidos

29/09/2007

Vou estar lhe enviando um vírus


Ontem eu estava pensando: Nigéria que nada, o Brasil é o país dos golpes. Tem o golpe do falso sequestro, da promoção da TIM, da promoção da Telemar, da promoção do 'você ganhou os livros, só falta pagar o frete'...

Bom, isso sem falar nos golpes via internet.

Eu recebi hoje um email com um link para um arquivo de vírus, de uma suposta 'Flavinha'. Eu não tive nenhuma amiga 'Flavinha' no colegial, então...

Opa, primeiro problema aqui. O texto do email fala em "época do colegial". Opa opa opa. Da minha turma, quase ninguém fala colegial. Aliás, o que é colegial? Seria o ensino médio? Acho que o dr. (ou dra. Golpe) que escreveu o email está assistindo Smallville demais (e pode ser que só tenha feito até a oitava série, também). Do Houaiss: "Colegial: relativo a colégio, diz-se de ou aluno de colégio".

Legal também é o ritmo de entrevista: "Impressionante como o tempo passou né? risos." Se bem que, para ficar bem entrevista mesmo, o 'risos' teria de estar entre parênteses.

Achei fantástico também o gerundismo: "Passei a foto para o computador para poder estar passando para o pessoal que identifiquei no orkut..". Gerundismo é um fenômeno relativamente recente, creio. A primeira vez que eu escutei o termo foi em 2004, depois do ensino médio. Será que a 'Flavinha' virou assistente de telemarketing?Gente, gente...

O pessoal já cai nesses golpes quando eles são mal feitos como o descrito acima. Temo quando eles começarem a ser refinados!


Escrito por Philipe às 08h19
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27/09/2007

Dica

Eu fiz o upload de um arquivo com a descrição (descrição, e não análise) dos determinantes do desempenho na prova do ENEM 2003, para o post abaixo. Em 2003, o público que fez a prova era diferente do de hoje. De qualquer forma, é bem esclarecedor. Você pode baixar o arquivo aqui. Vou colocar algumas tabelas do arquivo, a título de provocação.

Gostaria muito de um dia:

1. Aprender econometria a fundo; e

2. Ter acesso a um grande banco de dados sobre educação, como esse do ENEM.

Eu acho que a educação é algo importante demais para ficar na mão dos especialistas.

 


Escrito por Philipe às 17h56
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Escola Pública e Escola Privada - Um comentário

Vocês viram a decisão judicial da semana passada que obriga as faculdades federais de Minas Gerais a reservar 50% das suas vagas para estudantes provenientes da rede pública?

A idéia é que esses estudantes têm, geralmente, menores condições de passar no vestibular, o que, na minha opinião, é um diagnóstico correto. Partindo desse pressuposto, a idéia das cotas é que a alteração nas regras irá beneficiar os estudantes de escola pública, que são, atualmente e na média, mais pobres que os estudantes de escolas privadas.

Vamos por partes:

1. Será que a escola privada realmente tem melhor qualidade do que a escola pública, de maneira geral? O fato é que geralmente os estudantes de escola privada vêm de domicílios com renda maior. É possível que o fato de estudar em escola privada seja apenas proxy para domicílio de maior renda, sendo essa última dimensão a responsável pelo melhor desempenho escolar. Além disso, embora de maneira imperfeita, renda está associada a capacidade cognitiva. Assim, pode ser que renda seja proxy para capacidade cognitiva (sobre essas afirmações, leia mais aqui). Como capacidade cognitiva é, em parte, herdável, pode ser que estudar em escola particular seja uma proxy para o tal fator g, de desempenho cognitivo. Confesso que essa possibilidade é um pouco lúgubre.

2. É possível reduzir o viés de seleção acima descrito através do controle de variáveis. Se pegarmos uma amostra de alunos idêntica em tudo (renda, escolaridade dos pais, etc), exceto pelo fato de alguns estudarem em escola pública e outros em escola particular, é possível tentar isolar o impacto de se estudar em escola particular e não em escola pública. Como analisado no trabalho "Os Determinantes do Desempenho Escolar no Brasil", de Naércio Menezes, o impacto (sem controle de variáveis) de se estudar em escola privada é enorme. Entretanto, depois que controlamos por fatores como background familiar, o impacto diminui bastante. Se reduz bastante, mas é positivo. Ou seja, o fato de estudar em escola particular ajuda no desempenho escolar, embora não tanto quanto parece à primeira vista.

3. Uma questão importante é que, quando se alteram os incentivos, se alteram também os comportamentos. Ao se reservar 50% das vagas para estudantes de escolas públicas, elas se tornam muito mais atraentes do que eram antes. Assim, creio que muitos estudantes que atualmente estão em escolas privadas irão se transferir para escolas públicas, caso a medida judicial não seja derrubada e se institucionalize. Assim,os alunos de escola privada que tenham eleito passar no Vestibular como prioridade na vida poderão muito bem mudar para a escola pública (isso até que a probabilidade de passar no vestibular seja igual entre as duias cadeias de Escola, o que deve ocorrer no longo prazo, caso a medida "pegue"). Se o efeito escola é menor do que o efeito background, é bem possível que essas vagas reservadas para escolas públicas sejam destinadas a alunos de renda mais elevada que tenham migrado da escola particular. De fato, pelo que conheço do público vestibulando, é bem capaz que esses alunos de renda mais alta que se transfiram para a escola pública façam aulas de reforço escolar ou um cursinho de boa qualidade no turno da noite, opções que são mais difíceis de se perseguir quando se tem uma renda familiar mais baixa.

4. Um efeito possível dessa migração de alunos da escola privada pública poderia ser o aumento da qualidade do ensino na rede pública, através de um peer efect a ser causado pela entrada de estudantes com desempenho melhor. Por outro lado, esses estudantes vindos da escola privada poderiam ter seu desempenho reduzido pelo mesmo mecanismo.

 


 

Claro que os alunos da escola privada só começarão a migrar para a escola pública quando tiverem certeza de que essa medida será institucionalizada, o que, sinceramente, acho que não irá acontecer.

Resumo da ópera: se a cota "pegar", esperem uma migração de alunos da escola privada para a pública. Não sei se a participação de alunos de renda mais baixa nas faculdades públicas irá aumentar muito, no longo prazo, por causa da medida.


Eu, pessoalmente, não tenho uma opinião definitiva sobre a questão das cotas. Já vi economistas muito bons defenderem lados opostos na questão. Por um lado, eu acho que um aluno que venha de uma classe social baixa e que tenha talento (inteligência e determinação), consegue se igualar a um aluno de classe social mais elevada que tenha talento semelhante. Por outro lado, talvez fosse o caso de se tentar um head-start de Arrow, em que se daria a uma ou duas gerações o benefício da cota. Se, depois dessas duas gerações, a diferença nos diversos aspectos sociais entre as classes se mantivesse, haveria mais do que diferença no acesso ao ensino superior público para explicar a persistência na diferença de renda entre as classes. Um outro ponto interessante: até que ponto a diferença no acesso ao ensino superior público explica a persistência do coeficiente de Gini do Brasil em um nível tão elevado?


Um ponto de partida interessante para se pensar nessas questões é o Freakonomics. Se você ainda não leu, é uma excelente pedida. Arrisco dizer que está no top ten dos livros que eu já li em questão de relevância por página.

Uma descrição (uma descrição, não uma análise) de alguns determinantes do desempenho do ENEM de 2003 (quando o perfil do público da prova era bem diferente) pode ser encontrada aqui, hospedado no meu humilde blog. =) Se der, dêem uma passada de olho. É muito esclarecedor.


Escrito por Philipe às 17h38
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25/09/2007

Re-post

Que vergonha! Não publiquei nada esses dias. Nesse caso, coloco um repeteco de um post legal. Sorry guys, I'll be back soon!

Prova Excel - CESPE

O CESPE, da Universidade de Brasília, faz provas para diversos concursos. Você, em sua vida mortal, se não for um rico agricultor de soja em Mato Grosso, provavelmente irá se deparar com uma. E mesmo se você for o rico fazendeiro, o seu filho vai fazer uma prova do CESPE.

Ok.

As provas do CESPE geralmente incluem regras do tipo "uma errada anula uma certa". Há argumentos a favor e contra esse tipo de prova. Não pretendo nem chegar perto dessa discussão.

O meu ponto é: as provas de informática do CESPE são um terror.

Aliás, 'terror' não é o termo exato. 'Terror' é quando se sente impotente diante de algo ruim. 'Horror' é melhor.
Por exemplo, olhem o fragmento de prova que ilustra este post:

"Clicando-se o cabeçalho da lina 2-2- e, em seguida teclando-se delete, os conteúdos das células de B3 a B9 serão transferidos para as células de B2 a B8, respectivamente."

Vamos lá: o que o CESPE pretende com esse tipo de questão? Alguém pensaria: "Esse blogueiro é um idiota, claro que o CESPE quer alguém que seja craque em Excel". Ao que o blogueiro retrucaria: "Pare de me interromper e me deixe expandir o argumento."

O CESPE realmente deve querer selecionar pessoas com bom conhecimento de Excel. Porém, acredito que esse tipo de prova seleciona os candidatos com PIOR conhecimento de Excel. Ou, pelo menos, os usuários medíocres.

Vou fazer o ponto no caso de informática, mas poderia ser expandido para outras áreas, a gente chega lá.

O cérebro humano é repartido em diversos "módulos". Não vou nem me arriscar a aumentar essa explicação aqui, mas me deixe dizer que teríamos, entre outros, um módulo de "atenção detalhista e intensiva" e outra de "fazer automaticamente e reflexivamente".

Quando você aprendeu a dirigir (ou andar de bicicleta ou a digitar), você com certeza passava muito tempo atentando aos detalhes: quão forte pisar no acelerador, ou como manter o equilíbrio durante a pedalada ou onde estavam as letras do teclado. Durante a execução dessas tarefas a atenção estava absorvida, pensava-se no que fazer a seguir, reparava nos detalhes, etc.

Mas com o passar do tempo, algo fascinante aconteceu: a pessoa passou, com o tempo, a dirigir com mais naturalidade, a pedalar sem precisar se preocupar com o equilíbrio ou a digitar olhando menos para o teclado e pensando com que dedo digitar cada tecla.

A pessoa passou a fazer tudo isso sem pensar e, o que é mais impressionante, sem pensar e com cada vez mais habilidade.

Isso tudo aconteceu porque o cérebro passou a executar essas tarefas no módulo "autômato" em vez de no módulo "atenção-raciocínio intensivo".

Uma analogia útil é, para quem entende um pouco de hardware, é que o processamento da tarefa passou de um módulo genérico e intensivo em cálculo (processamento por software) para um módulo especializado e econômico em cálculo (processamento por hardware).

À medida que nos tornamos bons em certas atividades, simplesmente "esquecemos" como ela é feita. Simplesmente fazemos, sem precisar pensar.

É por isso que grandes profissionais nem sempre são grandes professores. Um piloto de corrida pode ter dificuldade de explicar como se dirige, pois tudo é tão "natural" para ele. Uma dona de curso de inglês me confidenciou que não gostava de professores nativos para dar aulas para estudantes iniciantes. Ela disse que os mecanismos básicos da língua vinham tão naturalmente para os nativos que eles não conseguiam explicá-los.

Bom, nisso voltamos ao CESPE.

Quando se faz uma prova que pede detalhes mecânicos do que acontece quando se aperta uma sequência de teclas no Excel, quem terá vantagem nisso?

O usuário avançado do Excel poderia se atrapalhar. Afinal, as coisas vêm naturalmente a ele. Faz tempo que ele não precisa pensar nesses detalheszinhos para que o serviço seja bem feito.

Já um usuário iniciante de Excel provavelmente irá ter mais facilidade em responder à prova, pois ele repara nesses detalhes. Ele PRECISA reparar nesses detalhes para que o trabalho saia.

Assim, o nosso colega iniciante no Excel terá uma vantagem sobre o usuário avançado durante a feitura da prova.

Acho que não é isso que os nossos colegas do CESPE queriam, não é?

Uma professora de faculdade, ás do Excel, precisou sentar diversas vezes com os alunos durante um trabalho para explicar como operar o programa. Ela sabia fazer tudo com rapidez e mestria, mas tinha dificuldade em nos explicar como fazer a operações braçais "aperte F9 e TAB duas vezes, depois tecle INSERT e ENTER" que o CESPE cobra.

Tal argumento é muito sólido quando se trata de coisas mecânicas, como andar de bicicleta, dirigir um carro ou trabalhar no Excel. Quando as coisas são mais "lógicas", como discutir uma questão de história ou resolver um problema de matemática, as coisas são diferentes. Aí, geralmente quem sabe mais pode explicar melhor. Isso ocorre porque o núcleo "automático" consegue trabalhar com o módulo "atenção-raciocínio intensivo", diferente do que ocorre em tarefas mecânicas.

Entretanto, mesmo lá o tal do 'think hard' não é tão bom quanto é susposto.


Escrito por Philipe às 14h02
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