Matizes Escondidos

16/02/2007

Paciência e Desigualdade de Renda

Do Cafe Hayek:

Paciência é uma virtude, mas também causa desigualdade de renda. Até mesmo na Amazônia. http://www.economist.com/science/displaystory.cfm?story_id=8663354


Escrito por Philipe às 08h13
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15/02/2007

Bônus Demográfico

Do Temas em economia:

"De acordo com Gladwell, reduções na taxa de dependência explicam em parte os milagres econômicos irlandês e asiático, assim como a elevada taxa de dependência é um fator crítico na determinação do desastre africano. (...)

A introdução da questão demográfica reduziu a necessidade de se recorrer ao argumento de que há algo de excepcional com relação à Ásia Oriental ou de idiossincrático com respeito à África', Bloom e Canning escrevem em seu estudo do milagre irlandês. 'Uma vez que a dinâmica da estrutura etária é introduzida no modelo de crescimento econômico, estas regiões se acham mais próximas de obedecer a princípios comuns de crescimento econômico'. (...)

Conseguir uma taxa de dependência de 1 para 2,5 não torna o sucesso econômico inevitável, mas, dada uma infra-estrutura econômica e política razoavelmente funcional, certamente torna o sucesso muito mais fácil."

Da wikipedia: In economics, the dependency ratio is the ratio of the economically dependent part of the population, to the productive part. The economically dependent part is recognised to be children who are too young to work, and individuals that are too old, that is, generally, individuals under the age of 15 and over the age of 65.

Triste é saber que o crescimento econômico no Brasil é fraco nos anos recentes mesmo com uma estrutura demográfica propícia. Estrutura, aliás, que em breve começará a se alterar. Crescimento é essencial, se não por outras razões, para diminuir, aliviar e dignificar a pobreza. É como diz Sowell: "The only thing that can cure poverty is wealth"

Da Folha de São Paulo de 22/01/2006:

BÔNUS DEMOGRÁFICO

Recuo do PIB e desemprego fazem país jogar fora oportunidade criada pela queda da expansão populacional


B
rasil desperdiça "ajuda" da demografia

ANTÔNIO GOIS

DA SUCURSAL DO RIO

O Brasil está desperdiçando uma oportunidade única, do ponto de vista demográfico, de promover o crescimento econômico.
Essa chance não se repetirá, mas, se for bem aproveitada, o país poderá repetir nos próximos 30 anos o mesmo crescimento do PIB per capita das décadas de 50, 60 e 70, marcadas pelos anos JK e pelo "milagre econômico" do regime militar.
Um estudo do demógrafo José Eustáquio Alves, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE, mostra que, com a queda do crescimento populacional, se o PIB crescesse 5% ao ano até 2030, igualaria o crescimento per capita verificado de 50 a 70.
A principal razão desse "bônus demográfico" é a queda na taxa de fecundidade, que, em 2004, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, chegou a 2,1 filhos por mulher, nível de mera reposição populacional.
Com menos crianças, cresce a participação da população em idade ativa, entre 15 e 64 anos, no total. Essa participação é medida pela taxa de dependência. Em 1960, para cada grupo de 100 brasileiros em idade ativa, havia 81 crianças e 6 idosos. A taxa era, portanto, de 87 "dependentes" por 100 em idade ativa.
Desde então, a taxa vem caindo, e as projeções populacionais indicam que chegará ao menor nível histórico nos próximos 30 anos. Com menos população "dependente", aumenta a possibilidade dos trabalhadores de acumularem poupança e investirem.

Prazo de validade
Os demógrafos alertam, no entanto, de que esse bônus tem prazo para acabar. A partir de 2030, a queda na fecundidade deverá chegar a um limite, enquanto a proporção de idosos no total deve aumentar em ritmo acelerado. Após ter chegado a 46 por 100 em 2020, a taxa de dependência será de 59 (28 crianças e 31 idosos) para cada grupo de 100 brasileiros em idade ativa em 2050. Em 2000, essa taxa era de 53 por 100.
"Em qualquer país, a transição demográfica só acontece uma vez e somente uma vez se pode utilizar o bônus. No entanto, essa janela de oportunidade de nada adiantará se o país não absorve a mão-de-obra disponível, e o maior indicador de desperdício hoje desse bônus são as altas taxas de desemprego", afirma Alves.

Poupança
O comportamento do emprego nos próximos 30 anos será fundamental para definir se os idosos do futuro ficarão dependentes da população jovem e adulta ou se, em vez disso, atuarão como incentivadores do crescimento econômico por terem acumulado poupança nos anos em que a situação era mais favorável a isso.
Para Cássio Turra, pesquisador associado da Universidade de Princeton e do Cedeplar (Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional, da UFMG), uma população idosa com poupança e capacidade de investir pode até se reverter, no futuro, em uma espécie de segundo bônus.
"Daqui para a frente, a pressão por gastos públicos com idosos será cada vez maior. Quanto melhor aproveitarmos o bônus demográfico, mais excedente será gerado para fazer frente às novas demandas que acompanham o envelhecimento. Ignorar isso é abrir mão de uma oportunidade única. O problema é que estamos ao menos dez anos atrasados nesse debate", diz Turra.
Eduardo Rios-Neto, presidente da Comissão Nacional de População e Desenvolvimento e professor do Cedeplar, afirma que o país já perdeu grande parte do dividendo demográfico causado pelo aumento da proporção de população ativa, mas ainda há tempo para se beneficiar.
"Os próximos 15 anos devem ser marcados por um planejamento de reformas e aproveitamento da dinâmica demográfica. O país deverá ter feito todas as suas reformas estruturais e a transição para o crescimento econômico sustentado até 2020. A partir daí, a pressão demográfica na previdência só aumentará por causa do envelhecimento populacional", diz Rios-Neto.

Segunda rodada
Para Turra, é preciso também manter a estabilidade: "O país cresceu menos do que o esperado pela instabilidade macroeconômica dos anos 80 e inicio dos 90. A manutenção da estabilidade nas próximas décadas é central para que o segundo bônus demográfico seja bem aproveitado".
Na avaliação de Sônia Corrêa, pesquisadora da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids, é preciso considerar que as condições globais para o crescimento dos países latino-americanos não são tão boas quanto as dos países desenvolvidos e de alguns tigres asiáticos no momento em que essas nações puderam aproveitar seu bônus demográfico.
A pesquisadora alerta também para o risco de querer criar políticas de controle de natalidade. "A queda na taxa de fecundidade de fato constituiu uma janela de oportunidade, mas isso não pode ser usado como argumento de que é preciso cair mais a natalidade para beneficiar a economia", diz Corrêa.
O demógrafo José Eustáquio Alves concorda: "Não estamos defendendo queda na fecundidade, até porque ela já caiu, mas, uma vez que isso aconteceu, é preciso aproveitar a chance".


Escrito por Philipe às 07h15
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13/02/2007

Chame o ladrão!

Entrevista interessante com um arombador: como esconder dinheiro e outros bens em sua casa? http://www.pfadvice.com/2007/02/05/the-best-place-to-hide-money-conversation-with-a-burglar/

Que tal em http://www.pfadvice.com/2007/01/26/skid-mark-safe-disgusting-but-if-it-works/


Escrito por Philipe às 08h07
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12/02/2007

Fetiche da Máquina

Mais uma inovação brasileira

A Nestlé abriu uma fábrica em Feira de Santana (BA), de olho no mercado de baixa renda (ver a nota abaixo), turbinado, segundo a própria empresa, pelos programas de transferência de renda. Aqueles que quase ninguém vai ver como funciona, mas muitos não ficam vermelhos de carimbá-los, assim, sem mais nem menos, de “assistencialistas”.
 
A Nestlé, que não dorme de touca e não queima dinheiro, investiu R$ 100 milhões para aproveitar o “assistencialismo”. O “assistencialismo” fez com que o volume de vendas da empresa na região nordestina crescesse 20% em 2006 – duas vezes e meia acima do crescimento médio de suas vendas no País.
Impulsionada pelo “assistencialismo”, a nova fábrica vai produzir 50 mil toneladas de alimentos por ano, adquirindo parte dos insumos de produtores locais. E abrirá 2 mil empregos diretos e indiretos na região.
 
Como os neoliberais estão sempre certos e os programas de transferência de renda não passam de um vil e eleitoreiro assistencialismo, vai ver que o Brasil está inovando mais uma vez nas leis econômicas. Aqui assistencialismo gera emprego. E ainda por cima não qualquer emprego, mas empregos industriais!
 
Publicado por José Paulo Kupfer - 11/02/07 12:01 AM

Interessante. O programa bolsa-família e seus afins são uma forma inovadora na questão social de se lidar com a questão da pobreza.

Dada uma distribuição inicial de recursos (qualquer que seja), o mercado alcançará um resultado eficiente. Claro que eficiente não significa necessariamente justo, definindo-se justo de alguma maneira. Assim, se há um problema com um resultado de mercado, o ideal seria se alterar a distribuição inicial de recursos até que se alcance uma distribuição considerada justa (o head start theorem de Arrow).

Nem todos os recursos que têm valor no mercado de trabalho (atratividade física, bom humor, disposição e capacidade de lidar com risco e incerteza) são redistribuíveis. Logo, o mercado de trabalho, mesmo sob algumas presuposições de concorrência bem generosas, não será totalmente igualitário. As implicações morais disso são diversas, mas é um fato.

O que os programas de transferência de renda promovem é uma distribuição e um arranjo de recursos que são mais maleáveis e, assim, mais passíveis de distribuição e redistribuição. Educação é bem não-rival e não-excluível se temos uma rede de ensino universal. Por exemplo, ao exigir uma contrapartida educacional, os programas de transferência de renda aliviam (ou deveriam aliviar) um pouco a questão do gradiente educacional entre as classes brasileiras. Infelizmente, as escolas públicas têm problemas graves de qualidade. Assim, todos deveriam lutar por uma escola pública melhor.

E, claro, temos a transferência de recursos financeiros propriamente ditos. Ao transferir renda para os cidadãos mais pobres, o governo está definindo uma distribuição de recursos menos desigual. E o que é notável: ao alterar a distribuição dos recursos e não a organização do mercfado, o resultado alcançado é eficiente. O mesmo não aconteceria, por exemplo, com um controle de preços. É claro que as transferências tem que ser financiadas de alguma forma, como taxação, e essas causam desincentivos ao trabalho. Além disso, a existência de transferências/equalização pode causar algum risco moral na força de trabalho. Em casos extremos, como nos países que eram comunistas, poucas pessoas se interessavam realmente por trabalhar bem e com qualidade. Mas, no caso brasileiro, como o custo fiscal desses programas é pequeno e o âmbito, limitado, creio que as ineficências não devem ser grandes (minha especulação, não tem valor científico, claro.)

Assim, a transferência de renda pode ser entendida como dando o primeiro degrau de acesso para o mercado. E, ao se mexer na distribuição de recursos, e não na alocação de mercado, garante-se que a alocação é eficente (o "tamanho" do bolo é o maior, dado os recursos iniciais).

Assim, creio que qualquer pessoa que se importe realmente com a questão da pobreza e desigualdade no Brasil deveria:

1. Defender a consolidação de programas como esses;
2. Lutar por uma educação pública de qualidade.

É impossível deixar de se emocionar com relatos de quem pode dar uma alimentação melhor para a família ou comprar um equipamento para começar a trabalhar por conta própria, ou pode passar mais tempo com os filhos, por conta de um dinheiro que, na conta final das finanças públicas, tem um custo fiscal pequeno em relação a outros programas sociais.

Eu não sei o que é ser "neoliberal", mas se ser neoliberal significa confiar numa alocação de mercado, me parece que os programas de transferência de renda, sim, são neoliberais.

PS: Discussões políticas não são bem-vindas, ler http://matizes.escondidos.zip.net/arch2006-09-24_2006-09-30.html para entender minhas razões.

PS2: Depois eu expando o ponto e a minha argumentação. Agora estou sem tempo.


Escrito por Philipe às 08h01
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