Ontem a Folha de São Paulo (é o terceiro post com origem na Folha hoje), bem como outros veículos de comunicação, publicaram um artigo, Aliança para Mudança, assinado pelos presidentes do Brasil e da França, Luiz Inácio Lula Da Silva e Nicolas Sarkozy, respectivamente.
Ora, ora, ora.
Quem já teve que participar de uma redação em grupo sabe que o quão difícil é fazer sair qualquer coisa. Qualquer coisa:
- Implantação ou implementação?
- Olha, "implantação" é mais tranquilo, mais conservador. "Implementação" implica que vai se seguir toda uma série de procedimentos. Dá uma idéia de processos formalizados e...
- Mas o que a gente está fazendo é o que? Processos "avacalhados"?
Isso quando não se chega à discussão entre "eficiência", "eficácia" e "efetividade".
Geralmente esse tipo de debate é resolvido quando uma das partes, geralmente a mais fraca, cede. Mas e quando os dois que assinam são presidentes da República? Tanto o Brasil quanto a França são países independentes e soberanos, reconhecidos pela ONU.
Para complicar, o Lula não fala muito francês e Sarkozy, creio, não deve ser um profundo conhecedor da língua de Camões. Assim, além dos presidentes, temos dois intérpretes-tradutores (cada país traz o seu de confiança). Questões de tradução são ainda mais ensangüentadas do que mera redação ("poxa, a gente usa freedom ou liberty aqui?"). Mais um focode problemas.
Mas sabemos que os presidentes dificilmente se dariam ao luxo de escrever muita coisa pessoalmente. Eles sugerem linhas gerais aos seus ghostwriters, que ficam incubidos de dar um corpo às idéias que se deseja expressar. O ghostwriter tem certa liberdade, mas precisa se ater à idéia sugerida. Assim, eles precisam se consultar às vezes com seus chefes.
Então temos até agora: dois presidentes, dois intérpretes-tradutores e dois ghostwriters. Quem já tentou marcar uma reunião, por mais boba que seja, sabe que é difícil agendar um encontro, mesmo com apenas duas pessoas. Com seis então, complicadíssimo - a fórmula para dificuldade de se marcar uma reunião é (A^µ), onde A é uma constante maior que um, e µ é o número de pessoas que devem estar presentes.
A solução é indicar um secretário-executivo para o agora Comitê de Redação Franco-Brasileiro. Mas apenas um? E a representação paritária? Como ambos os países são membros da ONU, etc, Brasil e França indicam um secretário-executivo cada um, que se revezam.
Assim o texto sai.
Que textos assinados por figurões de governos de países diferentes sejam publicados é uma grande realização, não necessariamente apenas pelo lado diplomático.
Dia desses a ministra Dilma ficou muito irritada (e com razão) com a Folha de São Paulo, por ela ter publicado uma ficha obviamente forjada que traria os crimes da ministra quando ela ainda era guerrilheira. O fato é que ela andou forjando o próprio currículo (Lattes).
A Folha de hoje trouxe uma reportagem falando sobre como a plataforma Lattes é facilmente manipulada para adicionar informações inventadas (ou criar currículos completamente falsos). Como exemplo, ela cita o "currículo" de Carlos Eduardo dos Santos Galvão Bueno, o conhecido narrador da Rede Globo. Embora ele já tenha sido removido da base do Lattes, eu o encontrei no cache do Google e o salvei aqui.
Quem criou o currículo do Galvão pode ter cometido uma fraude (assim como a ministra), mas mostrou um senso de humor muito superior...
Fui só eu ou você, lendo o título "Ribeirão reclica (sic) metade do lixo que paga", também não entendeu nada? Os subtítulos, em especial o primeiro, também não ajudam muito.
Segue o texto:
VERIDIANA RIBEIRO DA FOLHA RIBEIRÃO
A Prefeitura de Ribeirão Preto paga cerca de R$ 60 mil mensais pelo serviço diário de coleta seletiva feito em quatro caminhões da empresa Leão Ambiental, mas só metade do material está sendo reciclado. O restante, pode estar sendo jogado fora, de acordo com o Ministério Público Estadual.
O problema, segundo apurou a Folha, acontece há pelo menos três semanas. É que o local onde toda a reciclagem do lixo coletado pela Leão Ambiental passou a ser feita, um galpão improvisado no Parque Permanente de Exposições, não tem equipamentos básicos de trabalho, como esteira para separação de recicláveis e prensa.
Em tese, segundo o Daerp (Departamento de Água e Esgotos de Ribeirão Preto), o lixo seletivo "excedente" está sendo armazenado provisoriamente pela Leão Ambiental em caçambas para ser reciclado posteriormente. As caçambas, segundo o Daerp e a Leão Ambiental, ficam em uma área de transbordo no aterro sanitário da prefeitura, localizado na rodovia Mário Donegá.
(...)
Mesmo lendo a reportagem, ainda fico em dúvida a respeito do que a jornalista queria dizer com aquele título.
Não há melhor investimento que o leite das crianças - Winston Churchill
Tão importante quanto o leite é a cerveja dos trabalhadores - Querido Líder
Ahn?
"The refrigerator vans carrying beer have a traffic privilege on the streets of Pyongyang like cars carrying soybean milk to children" em http://www.kcna.co.jp/item/2009/200906/news25/20090625-14ee.html.
No site da loja (www.delirius.com.br) você tem que indicar se tem mais ou menos que 18 anos. Se você tiver mais que 18, o site abre. Se não, é redirecionado para o www.disney.com.br.
Outro dia eu vi um caixa eletrônico do Banco do Brasil iniciando (a maioria dos caixas eletrônicos é baseada em PCs comuns). Para a minha surpresa, eles usam o OS/2 Warp, um sistema operacional velhinho que, durante boa parte da década de 1990, foi mais avançado que as versões então disponíveis do Windows. Entretanto ele nunca "pegou" de verdade, talvez por função de dependência de trajetória, como é comum no mercado de tecnologia. Afinal, ainda que o mercado de PCs ainda engatinhasse, a maioria dos computares já vinha equipada com o MS-DOS e o Windows, e as pessoas se acostumaram a eles. Segundo a Wikipedia, ele alcançou, entretanto, uma boa participação no mercado de caixas eletrônicos.
Falando em dependência de trajetória, um dos exemplos preferidos do fenômeno é a persistência do layout de teclado QWERTY, apesar de suas supostas deficiências. Pode ser, porém, que esse não seja um bom exemplo.
A falta de conteúdo da Internet em português é alarmante. Eu faço uma pesquisa sobre "dependência de trajetória" e olha o que eu encontro:
Para quem não acompanhou a confusão Dilma-Folha: em 5 de abril deste ano, a Folha publicou a imagem de uma ficha que traria os crimes da hoje ministra Dilma Roussef durante seus tempos de guerrilheira. A Folha incluiu a seguinte legenda na imagem: "Ficha de Dilma após ser presa com crimes atribuídos a ela, mas que ela não cometeu". Segundo o jornal, a foto seria do arquivo do DOPS.
Isso me deixou estupefato. Semanas antes eu tinha recebido por e-mail a tal imagem. E foi por meio de um e-mail sem muito pedigree, daqueles Fw:FW:Enc:FW:ENC. Achei a ficha relativamente interessante, apesar de ser obviamente uma criação digital recente, não muito bem feita. Creio que quem criou a suposta ficha queria apenas chamar a atenção para esse lado menos conhecido da vida da ministra, mas sem a pretensão que se pensasse que o "documento" fosse real.
Quando vi que o jornal havia publicado a tal ficha, quase caí para trás. Qual seria o próximo passo? Noticiar o fim iminente do Portal Domínio Público?
A ministra protestou, questionando a autencidade da imagem. A Folha se retratou e fez vários diversos mea-culpa. Recentmente foi publicado que a análise da ficha revelou que ela se tratava de uma montagem.
A pergunta é: como é que os caras da Folha não perceberam, logo de cara, que se tratava de uma montagem? É evidente que a ficha é montada.
Vamos lá:
1 - A letra em azul na ficha é uma velha conhecida, a Arial tamanho 8. A Arial é de 1982, ou seja, posterior à suposta feitura da ficha. Compare abaixo, com a letra da ficha no lado esquerdo, comparado com a Arial 8. São idênticas.
2 - A letra em preto e marrom da fixa é a Courier. Ela já existia na década de 1960, mas se ela tivesse sido impressa por máquina de escrever, não poderíamos identificar pontos (pixels) individuais, como vemos na curvatura do "c" maiúsculo.
3 - Ao redor das letras podemos notar artefatos de compressão. São os "grãozinhos" que são vistos onde há texto. Se a ficha tivesse sido escaneada e salva em formato com alta compressão, esperaríamos que esses artefatos estivessem espalhados de forma mais uniforme sobre a imagem. O fato deles estarem junto a onde há texto indica que a imagem foi editada diversas vezes e que o texto foi incluído de forma separada do fundo.
4 - Os "danos" ao "papel" da ficha são mal feitos e alguns se repetem.
Quem criou a ficha provavelmente não é simpático à ministra, o que é completamente defensável em uma democracia. Só que ao criar a tal ficha, e com a "ajuda" dos "aloprados" da Folha, acabou por dar munição à ministra.
Segundo a literatura sobre felicidade (um tópico complexo e controverso, um ponto de partida razoável é este) a felicidade que um indivíduo afirma sentir é relativamente estável ao longo do tempo, sendo razoavelmente independente dos fatos (bons ou ruins) que lhe acontecem. Um importante componente da felicidade, entretanto, que é a diferença entre o que se deseja e o que se tem (ou seja, desejo - realidade), encontra-se em parte sob controle volitivo. Assim, como ensina o budismo, já que a nossa capacidade de intervir positivamente na realidade é naturalmente limitada, uma das maneiras de buscar ser ser mais feliz é procurar reduzir o desejo do prazer. Isso não quer dizer necessariamente privação, apenas o controle daquilo que essa filosofia denomina apego.
Esse é o primeiro motivo para eu não ver com bons olhos esta música:
Beijar Na Boca - Cogumelo Plutão
Eu estava numa vida de horror Com a cabeça baixa sem niguém me dar valor Andava atrás Da minha paz
Agora que mudou a situação Choveu na minha horta vai sobrar na plantação Deixei para atrás Pois tanto faz
Eu quero mais, é beijar na boca Eu quero mais, é beijar na boca Eu quero mais Eu quero mais, é beijar na boca E ser feliz Daqui para frente Para sempre
Já que livrei daquela vida tão vulgar Me vacinei de tudo que podia me pegar Corri atrás Quem tenta faz Eu quero mais mais mais mais mais
Eu quero mais, é beijar na boca Eu quero mais, é beijar na boca Eu quero mais Eu quero mais, é beijar na boca E ser feliz Daqui para frente Para sempre
Poxa, ser feliz para sempre? Isso é por definição o máximo que se pode ter como desejo (superado talvez por conseguir fazer um moonwalk perfeito).
É por isso que eu sempre digo, não baseie sua filosofia de vida em uma música pop-rock com forte vocação para virar hit no carnaval de Salvador na voz de uma cantora que adiciona consoantes mercadológicas no nome.
O segundo motivo para não gostar da música é que tem uma academia de ginástica no meu prédio, que coloca a bendita para tocar todo dia na maior altura (na versão da cantora que adiciona consoantes mercadológicas no nome...).
Conheci este blog outro dia, via Folha de São Paulo (que vergonha...). O estilo é interessante, como um SWPL brasileiro. Pena que parece que morreu - dá para ler todos os posts rapidinho. Uma pena.
Um dia desses eu participei de uma dinâmica de grupo. Uma das atividades que tínhamos que fazer era pegar uma folha de papel, canetinhas, revistas, tesoura e cola e fazer uma apresentação sobre nossa família, nosso trabalho e sobre nós mesmos. Em especial, tínhamos que recortar uma figura da revista com a qual nos identificássemos e explicar porque nos identificamos.
Falar sobre família e trabalho foi ok. Mas e para achar alguém com quem eu me identificasse na revista?
Queria recortar alguém com terno e gravata ("é assim que eu me vejo daqui a cinco anos, etc"), mas todo mundo que eu achava na revista (era uma semanal famosa) vestido com terno e gravata era bandido, ou suspeito de ser bandido. O tempo era curto e estava quase acabando... Eu não queria sair de lá caracterizado como alguém que não conseguia aproveitar estratégicamente o tempo oferecido para criar soluções ganha-ganha para o meu ambiente organizacional e para os clientes.
A partir daí foi fácil. Foi só eu falar que, além de parecer fisicamente com o protagonista (é o que dizem), eu também sou fã de Bollywood e trabalhei num call-center, além de me sustentar quando moleque sendo pseudo-guia no Taj Mahal.
Ou então eu falei alguma coisa sobre metas e objetivos, e lutar para alcançá-los. Foi algo assim.
À medida que a venda de música por meio de CDs foi se popularizando no final da década de 1980 e início da década de 1990, o processo de mixagem e finalização, antes focado no público audiófilo, passou a privilegiar o apelo comercial dos discos. O grande problema é que essa mudança de orientação ocorreu em detrimento da audibilidade dos álbuns. A razão disso é que existe um trade-off existente entre o volume médio do disco e sua qualidade sonora.
Você pode fazer um álbum que soe sempre alto, o que facilita sua reprodução em ambientes com barulho (como dentro de um carro em movimento) e também sua divulgação no rádio (importante para tentar emplacar um artista), ou você pode fazer um álbum que soe de maneira soberba, mas não pode ter os dois ao mesmo tempo. Em especial, em um disco sempre alto a emoção e profundidade do áudio ficam comprometidas. Além disso, em um álbum muito alto o som pode ficar pura e simplesmente distorcido.
Era o início da infame guerra da altura, ou como é mais conhecida, loudness war.
Veja este vídeo imensamente instrutivo:
Agora veja um exemplo bastante dramático - compare a qualidade de um trecho do novo álbum do Metallica, Death Magnetic, no CD original (com a qualidade muito prejudicada devido à altura excessiva) e no jogo Guitar Hero (sem altura excessiva):
Eu ainda continuo comprando CDs de vez em quando, porque eles oferecem qualidade de som melhor que o MP3(embora eu admita que a qualidade é apenas marginalmente superior quando o bitrate do MP3 é igual ou superior a 192 kbps), vêm com encarte (ainda que muitas vezes sem as letras, o que me deixa furioso) e, como livros, ficam muito bonitos na estante. Mas é duro gastar dinheiro para comprar um álbum que soa naturalmente mal devido a má mixagem ou altura excessiva.
***
A motivação desse post é que semana que vem sai no Brasil o novo álbum de Regina Spektor - Far, o primeiro após o sucesso de Begin to Hope (aliás, Regina Spektor é bem mais que Fidelity).
Será que ele soará bem?
Vamos ver o histórico de Regina nesse aspecto. Peguei as duas primeiras faixas dos quatro álbum anteriores e usando o magnífico Audacity extraí a waveform do áudio das músicas. Ei-las:
11:11 (2001) - Não foi lançado por grandes gravadoras
01 - Love Affair
02 - Rejazz
Songs (2002) - Não foi lançado por grandes gravadoras
01 - Samson
02 - Oedipus
Soviet Kitsch - 2004 - Primeiro lançamento por uma grande gravadora, mas ainda antes da consagração da artista
01 - Ode to Divorce
02 - Poor Little Rich Boy
Begin to Hope (2006) - Lançada por uma grande, primeiro álbum com Regina já consagrada
01 - Fidelity
02 - Better
O que vemos nos desenhos acima é que os primeiros álbuns de Regina (mesmo o Soviet Kitsch, que saiu por uma grande gravadora), eram, embora longe de perfeitos, relativamente bem comportados em relação ao quesito "altura". Já o Begin to Hope, que saiu com Regina já consagrada, e por isso com um maior apelo comercial, é bem alto, o que prejudica a sua apreciação mais detida. Por isso, temo. Bem que o novo álbum poderia sair sem altura demais.
Quando eu o tiver em mãos, comento aqui. E não vou baixar os MP3s (bom, os FLAC, talvez...)
Ei, você se lembra disto e disto? Se sim, parabéns, você faz parte da elite-branca-do-olho-azul-causadora-de-derretimento-financeiro-global, usuária de internet desde os primórdios. Lembrei por causa disto.